Nascimento do Atlântico

Julho 6, 2010

Um dos emblemas da cidade de Nova Iorque é a Ponte George Washington, que liga a Ilha de Manhattan à cidade de Nova Iorque, numa zona conhecida por “Palisades”. Nestas falésias de Palisades, podemos observar “tubos de órgãos verticais” de natureza basáltica conhecidos mundialmente na Irlanda na famosa “Calçada de Gigantes”. Talvez a melhor tradução para Palisades seja mesmo “tubos de órgãos”. Esta região que aflora na região de New Jersey foi o resultado de uma actividade vulcânica intensa contemporânea da abertura do Atlântico. Talvez seja difícil imaginar Nova Iorque ligada ao continente europeu, mas era esta a geografia do nosso planeta há 200 M.a. no limite temporal entre o Triássico e o Jurássico.

 

Esta sequência de rochas que formam “Palisades” foram analisadas por Paul Olsen  e Dennis Kent, e por datação absoluta, obtiveram uma idade aproximada de 200 M.a. De acordo com os trabalhos publicados por estes dois investigadores há 200 milhões de anos uma enorme sutura (rifte) terá tido início e conduziu à separação da Pangea nesta região. Os indícios desta enorme actividade vulcânica associada a uma pluma térmica, conhecidos por trapps podem ser observados no continente africano, Marrocos, no sul de Portugal, na América do Sul. Há 200 M.a. o Atlântico ainda não estava aberto, e quando todas estas regiões com mantos basálticos são unidas como peças de um puzzle a área abrangida torna-se gigantesca. Muito deste vulcanismo foi erodido, mas as estimativas para a superfície original é ordem dos 7 milhões de quilómetros quadrados. Estes mantos basálticos foram baptizados com o nome de Província magmática do Atlântico Central – CAMP.

Da descrição feita, resulta uma imagem interessante e elegante: a geografia actual do Atlântico guarda na memória a ocorrência de três grandes pontos quentes que provocaram a sutura da Pangea de Wegener.

Há 200 milhões de anos, os mantos basálticos do CAMP são o resultado de uma gigantesca pluma térmica que surgiu no coração da Pangea. O Atlântico norte abre-se, formando-se a grande dorsal e as numerosas falhas transformantes.

Há 130 milhões de anos, mais a sul surgem os mantos basálticos do Paraná-Etendeka, associados à pluma térmica de “Tristão da Cunha”. Nascia o Atlântico Sul e a África separava-se da América do Sul.

Mais recente, há 70 milhões de anos surge a Islândia que emerge em conjunto com os mantos basálticos da Gronelândia e das costas anglo-norueguesas, designadas por North Atlantic Tertiary Volcanic Province – NATVP.

Três mantos, três suturas no megacontinente e nascem três bacias oceânicas.

Três acontecimentos bruscos, quase todos com a duração de apenas 1 milhão de anos e geografia do planeta alterou-se.

O Atlântico esse, é a memória e o produto resultante destes acontecimentos.

Fontes utilizadas:

Vincent Courtillot – Nouveau  voyage au centre de la Terre. Odile Jacob.

http://www.mantleplumes.org/WebDocuments/CourtRenne2003.pdf

http://en.wikipedia.org/wiki/North_Atlantic_Igneous_Province

http://farm1.static.flickr.com/31/50317513_4db3f797f2_m.jpg

http://www.bestplaces.net/images/city/PalisadesPark_NJ.gif


Eras Glaciares

Junho 29, 2010

Milutin Milankovitch (1879-1958) propôs, pelo menos para o último milhão de anos, uma teoria baseada nos ritmos astronómicos, que segundo este autor seriam responsáveis pelas variações climáticas. De acordo com a teoria deste cientista jugoslavo, as variações periódicas da energia solar que é recebida pela Terra, em especial nas zonas polares, seriam suficientes para criar no pla­neta períodos glaciários e períodos mais amenos ou interglaciários.

Estudos realizados por muitos paleoclimatólogos sugerem que as varia­ções climáticas estão associadas de forma directa às mudanças ao nível da geometria da órbita terrestre, ou seja, ficou demonstrado que os ciclos de alterações climáticas podem estar relacionados com ritmos astronómicos que condicionam a órbita terrestre, como os períodos de obliquidade, a pre­cessão e a excentricidade orbital. Estes fenómenos astronómicos afectam, por exemplo, a duração das estações, permitindo que o gelo se acumule de um Inverno para o outro. De uma forma mais específica, Hays (1976) afir­mava na revista Science: Conclui-se que as mudanças ao nível da geometria da órbita terrestre são a causa fundamental da sucessão dos episódios de glaciação que ocorreram durante o Pleistocénico“.

Deste modo, podemos referir que os mecanismos associados à dinâmica terrestre (vulcanismo, “geometria” dos continentes e oceanos), e que são explicados à luz da Teoria da Tectónica de Placas, podem estar ligados às gla-ciações muito longas e que não se revestiram de um carácter periódico, ocorridas em diversos momentos da História da Terra. A teoria proposta por Milankovitch proporciona uma explicação mais satisfatória para a alternância de períodos glaciários e interglaciários ocorridos durante o Pleistocénico.

Imagem – Geologia 12º – Porto Editora

 

Para Courtillot, após a análise dos trabalhos realizados nos últimos anos os ciclos de Milankovic exerceram um efeito essencial nas modificações climáticas da Terra, e o Sol foi o agente principal dos equilíbrios termodinâmicos da atmosfera. Não é o dióxido de carbono que controla as variações da temperatura mas sim, a nossa estrela que modifica a temperatura na atmosfera e do oceano. Quanto a este último, quando aquecido liberta o dióxido de carbono (tal como podemos observar quando abrimos uma garrafa de água com gás). Quando arrefecem, os oceanos têm uma maior capacidade de dissolver o dióxido de carbono e como consequência, a atmosfera fica mais pobre em CO2. O Sol, uma estrela que apresenta variações ao longo do tempo associada a uma órbita da Terra também variável são o agente essencial nas variações climáticas, e de forma mais evidente, o agente responsável das últimas glaciações ocorridas no nosso planeta.

O dióxido de carbono não deixa de ser um factor importante neste contexto, mas não é a “causa inicial” do aquecimento/arrefecimento do planeta. Aliás, devemos a estas variações nas concentrações de dióxido de carbono natural a nossa temperatura amena, a presença de água no estado líquido no planeta e em última análise o aparecimento da vida no “planeta azul”.  

 


Quem controla o clima?

Junho 28, 2010

Um bom livro de “alterações climáticas” com dados recolhidos a partir da Geologia. Com uma leitura fácil, muito no género de um outro geólogo francês – Claude Allègre, percorremos com Courtillot os ciclos de Milankovic, a Tectónica de Placas e  uma verdadeira descida ao centro da Terra. Não colocando em causa “o aquecimento global”, Courtillot procura identificar os motores das alterações climáticas – a Geosfera.

Vicent Courtillot é professor de Geofísica na Universidade Denis-Diderot-Paris VII, além de  dirigir o Instituto de Física do Globo de Paris.


Plumas Térmicas

Junho 16, 2010

Quais os argumentos a favor das plumas térmicas?

O valor obtido pelo cálculo da razão hélio-4/hélio-3, em muitos basaltos oceânicos, é utilizado como argumento a favor da existência das plumas térmicas. O hélio-3 é um isótopo considerado primordial, uma vez que a maior parte deste isótopo foi originado na altura da formação do Universo, sendo incorporado aquando da formação do nosso planeta. Este isótopo, que deve existir nos materiais que constituem as camadas mais internas do planeta, não é produzido através da desintegração de qualquer outro isótopo radiactivo, pelo que a sua concentração é aproximadamente constante. O hélio-4 resulta da desintegração radiactiva de outros isótopos, como o urânio e o tório, elementos que se encontram concentrados nas regiões superiores da Terra, acumulando-se no decurso do tempo. Deste modo, quando, numa amostra de um determinado basalto, a razão entre hélio-4/hélio-3 é baixa, podemos supor que a quantidade de hélio-3 é maior, o que pode ser indicativo de uma origem profunda, onde os movimentos convectivos teriam uma participação quase nula. Os basaltos que ocorrem em muitas ilhas vulcânicas apresentam razões hélio-4/hélio-3 muito inferiores às dos basaltos recolhidos junto das dorsais oceânicas.

Em 1989, Vincent Courtillot, do Instituto de Física do Globo, em Paris, propôs a ideia de que a subida das plumas térmicas próximas da superfície originaria a perfuração da litosfera, o que seria responsável pelo aparecimento de um vulcanismo de grande amplitude com a emissão de milhões de quilómetros cúbicos de lavas basálticas.

Os traps do Decão, na Índia, estendem-se sobre uma superfície aproximada de um milhão de quilómetros quadrados e sobre uma espessura de pelo menos três quilómetros. Este cataclismo vulcânico ocorreu há, aproximadamente, 65 milhões de anos, no fim do Cretácico, num período extremamente curto da história da Terra (menos de um milhão de anos). Tal fenómeno pode estar relacionado com o nascimento de uma pluma térmica e pode ter contribuído de forma importante para o desaparecimento, nessa altura, dos grandes répteis e de muitas outras espécies. Por conseguinte, estes fenómenos vulcânicos, que estariam na origem destes volumes gigantescos de basaltos (traps), teriam perturbado fortemente o clima terrestre, sendo possível relacioná-los com as grandes extinções biológicas que marcam o fim de uma era geológica e o início de outra.
O responsável por este grande evento vulcânico associado ao aparecimento dos traps do Decão seria, então, o “nascimento” de um ponto quente que actualmente se encontra sobre a ilha da Reunião.
Os “pontos quentes” originados pela existência de plumas térmicas explicariam igualmente a abertura de novas dorsais. A dorsal do Atlântico teria sido originada, segundo esta perspectiva, devido à acção de “pontos quentes” que actualmente se encontram situados nas ilhas de Santa Helena e Tristão da Cunha, no Sul, e sob os Açores e a Islândia, no Norte. As plumas térmicas teriam, deste modo, desempenhado um importantíssimo papel, há, aproximadamente, 200 milhões de anos, na fracturação da Pangea.

Fonte : Jean-Paul Montagner, “Panaches mantelliques: des chalumeaux mythiques?”, in Pour la Science, Janeiro de 2005