Björn Lomborg e o aquecimento global

Abril 10, 2009

Em Abril de 2007 foi publicado em Portugal o segundo livro do dinamarquês Björn Lomborg.  De fácil leitura, este livro provocador defende que muitas das acções que estão a ser tomadas em consideração para travar o aquecimento global vão custar centenas de biliões de dólares. Além disso, são frequentemente baseadas em factores emocionais e não estritamente científicos e, provavelmente, vão ter pouco impacto na temperatura do planeta. Em vez de começarmos pelos processos mais radicais, Lomborg defende que, primeiro que tudo, devemos concentrar os nossos recursos em preocupações mais imediatas, tais como a luta contra a malária ou a SIDA e assegurar uma reserva segura de água potável.

Se nos conseguirmos acalmar, é provável que deixemos o século XXI com sociedades mais fortes, sem níveis extremos de morte, de sofrimento e de perda e com muitas nações mais ricas, com oportunidades inimagináveis, num ambiente mais limpo e saudável.

Um segundo livro, na realidade o primeiro deste economista, O Ambientalista Céptico, é mais “pesado”. Muito ao gosto de Al Gore, temos gráficos atrás de gráficos e estatística, muita estatística. Escrito no final da década de 90, este professor de estatística e auto-proclamado ambientalista decidiu examinar muitas das teorias ambientalistas. Björn Lomborg e os seus alunos de estatística começaram a investigar os dados nos quais os ambientalistas baseavam as suas sombrias previsões de desastre ambiental. De acordo com todos os pontos de vista, Lomborg descobriu que o estado da humanidade e da Terra tinha melhorado gradualmente, e de forma notória, nos últimos cem anos. Em média, as pessoas vivem mais tempo, são mais saudáveis, melhor alimentadas e têm vidas mais prósperas do que antes. Muitas doenças foram erradicadas, e os crescente desenvolvimento dos mercados livres no mundo levou a um uso mais eficiente dos recursos naturais. Neste livro, Lomborg deixa claro que existe espaço para melhoramentos, em muitas áreas. Mas a mensagem principal “de que as coisas estão a piorar” está completamente errada.

(…) A ideia central deste livro é que não devemos deixar para as organizações de defesa do meio ambiente, os lobbies ou órgãos de informação apresentem verdades e prioridades unilaterais. Ao contrário, devemos lutar para a cuidosa verificação democrática do debate sobre o meio ambiente, conhecendo o verdadeiro estado do mundo. (…)

(…) se quisermos tomar as melhores decisões para o nosso futuro, não devemos basear as nossas prioridades no medo, mas em factos. Assim, precisamos confrontar os nossos medos; precisamos desafiar a ladainha. A ladainha baseia-se em mitos, embora muitos desses mitos possam ser propagados por pessoas bem-intencionadas e compassivas. É difícil não ter a impressão de que as críticas brandidas por Al Gore não passam de uma expressão do nosso sentimento religioso de culpa. (…) Lomborg


Como uma bola colorida

Outubro 5, 2008

Um bom livro sobre os fenómenos geológicos. Livro de divulgação de ciência, ideal para especialistas e não especialistas. Numa linguagem simples, ideal para os nossos alunos, mas também para os docentes de biologia e geologia. Leve como uma bola de praia, ficamos a perceber e a gostar da geologia. Mas o livro é muito mais que um resumo de ciências geológicas.

Excerto do prefácio da autoria de Mariano Gago

“É um belo livro de histórias sobre a história da Terra.  Galopim de Carvalho, geólogo afectivo, professor, cientista, interventor, escreveu-o como fala: com um sorriso maroto e sem deixar de nos guiar pelo campo.  Ao lermos, julgando ainda estar sentados, entrámos sem saber num passeio geológico de domingo, de botas e pau ferrado, a ver finalmente ganhar sentido o que sempre tínhamos julgado olhar, mas sem verdadeiramente ver: pegadas de dinossauros extintos antes sequer de haver gente humana nesta Terra, rochas que já foram pó, rio, lava de vulcão, restos de terramoto. Gosto de pensar que Galopim nos mandou este livro para nos prepararmos durante a semana para o próximo dos seus passeios geológicos, ao vivo esse, com a Ciência Viva, num qualquer domingo. Conta connosco, amigo!

Há um mistério nas narrativas que vêm da ciência: tal como nas antigas epopeias ou nos livros de viagem, a evocação do real através da leitura, sem conhecimento prático prévio da experiência que lhe dá sentido, parece ser suficiente para parecer recriá-lo ao ponto de quase partilharmos o próprio sentido da experiência científica. (…)”

O que é a Geologia?

(…) A geologia mostra-nos a Terra como um sistema dinâmico, auto-regulado, harmonioso e frágil no contexto dos processos naturais, mas que começa a dar sinais preocupantes de rotura, em resposta às agressões decorrentes da sociedade do desenvolvimento e do consumo.

A geologia ensina-nos a posicionar o Homem no seio da natureza, ou seja, na inseparável dupla geodiversidade/biodiversidade, entendendo-se pelo primeiro destes neologismos o conjunto dos minerais, das rochas e das suas expressões no subsolo e na paisagem e, pelo segundo, o conjunto dos seres vivos do presente e do passado, estes conhecidos através dos fósseis. A geologia ensina-nos, também, que estamos entre os mais recentes elementos de uma longa e complexa cadeia de inter-relações desde sempre existentes entre a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a biosfera, num dinamismo alimentado por duas fontes de energia: o calor interno do planeta e a luz que nos chega do Sol. Se é certo que muitos domínios da geologia são indispensáveis à resolução de grande parte das necessidades do nosso quotidiano, também é indesmentível que está no centro de importantes preocupações de cariz filosófico, como são, por exemplo, a origem e evolução da vida, em geral, e a do Homem, em particular.

A história da vida é parte importante da história geológica. A sua relação com as geografias e os climas do passado faculta-nos uma torrente de informações de grande utilidade na compreensão do tempo presente e, até, na previsão do tempo que está para vir. Fala-se hoje, como nunca, no efeito de estufa e nas suas consequências no aquecimento global, na subida do nível das águas do mar e consequente inundação das terras mais férteis do planeta, na desertificação do interior dos continentes, etc., etc. O planeta em que vivemos já não é a imensidão incógnita que fez o destemor dos nossos e de outros marinheiros da época dos Descobrimentos. A vulgarização e a rapidez dos transportes e comunicações, com destaque especial para o avião, o telefone, o correio electrónico e a internet, transformaram-no na “aldeia global” de que tanto se fala. É neste espaço limitado que temos de aprender a conviver, se não quisermos pôr em risco a nossa sobrevivência como espécie. Faremos a nós mesmos o que já estamos a fazer ao orangotango e ao gorila, para citar apenas as duas espécies que nos estão mais próximas na escala da evolução biológica, entre as muitas insistentemente lembradas pelas organizações ambientalistas.

Dotado do cérebro mais evoluído de toda a criação, surgido na Terra nos últimos momentos da sua história, há escassos milhares de anos, o Homo sapiens tem vindo, sobretudo nos últimos cem anos, por desconhecimento de muitos e por interesse de uns tantos, a atentar contra o equilíbrio ambiental que lhe possibilitou a vida e de que não pode prescindir para continuara a viver. Conhecer a natureza dos constituintes desta “bola colorida” e os processos que asseguram o seu pulsar é fundamental para compreender, interiorizar e seguir as regras de conservação da natureza e de protecção do ambiente, regras que a Ciência já delineou e está a divulgar num mundo deslumbrado pela evolução tecnológica. Quando investigamos a história da Terra, que nos deu berço, limitamo-nos a arranhar a superfície de um planeta com cerca de 12 000km de diâmetro e 4570 milhões de anos, de que estivemos ausentes, praticamente, o tempo todo. A Terra viveu, pois, esta imensidade de tempo sem a presença da espécie humana e vai continuar a viver outra imensidade depois da inevitável extinção desta, extinção para a qual a sociedade desenvolvimentista está a caminhar a passos mais velozes do que os da evolução biológica natural. (…)

Galopim de Carvalho. “Como Uma Bola Colorida”