Enterrámos os mortos, mas não cuidamos dos vivos!

Julho 9, 2010

Após o sismo de 1 de Novembro de 1755 o rei ficou inconsolável perante a escala da devastação; numa carta endereçada a sua irmã, Bárbara de Bragança, descrevia-se triste­mente a si próprio «como um rei sem reino, num país sem capital».

 Incapacitado pela dor, permanecia na sua tenda, incapaz de agir ou de tornar decisões racionais; mas, em vez de convocar o parlamento e de encarregar os seus membros de assumirem o controlo da situação, preferiu delegar todos os poderes e responsabilidades no seu ambicio­so primeiro-ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal, cuja casa, na Rua Formosa, tinha sido um dos  poucos edifícios da baixa da cidade a escapar incólume à calamidade daquele dia — um facto que o rei, ao que parece, interpretou como outro sinal de Deus. Conta-se que o marquês de Pombal foi o primeiro  a chegar ao acampamento do rei e, quando o monarca lhe perguntou: «Que há a fazer para enfrentar este castigo da justiça divina?», respondeu com uma frase que iria ficar célebre: «Enterrar os mortos Majestade, e cuidar dos vivos

Quer tenha ou não havido esta troca de palavras no seu encontro, a tranquilidade racional de Pombal pe­rante a catástrofe impressionou de tal maneira o indeciso monarca que entregou todos os poderes oficiais ao seu primeiro-ministro, que contava na altura cinquenta e seis anos de idade. E a partir daquele dia o destino da cidade ficou nas mãos do marquês de Pombal.

A sua primeira medida foi convencer o rei a pôr de lado o plano de se transferir para o Brasil e a aceitar a ideia de que não era a altura de quebrar os vínculos com o seu povo; pelo contrário, como insis­tiam Pombal e os seus conselheiros, era fundamental reconstruir Lis­boa e restabelecê-la como capital de Portugal. Uma vez aceite este princípio básico, o imponente Pombal, que tinha mais de dois metros de altura (entre os britânicos, era conhecido como the Lisbon Oak [o carvalho de Lisboa]), instalou-se num coche emprestado pelo Palá­cio Real de Belém, no qual viajou de regresso às ruínas de Lisboa, emanando decreto após decreto para regulamentar os mais ínfimos pormenores da reconstrução da cidade. A sua energia era fenomenal, e numa semana tinha publicado mais de duzentas medidas, a partir do seu quartel-general itinerante, puxado por cavalos, para regulamentar o enterramento dos cadáveres, a remoção dos escombros, a recolha de mantimentos e de equipamentos médicos, a alimentação dos desaloja­dos, a mobilização dos militares, a nomeação de magistrados, a manu­tenção da disciplina, o rigor nas notícias dadas pela imprensa, a estabi­lidade dos preços, o movimento marítimo, e a protecção da costa portuguesa, agora vulnerável, contra a actividade dos piratas norte-africanos. Sozinho, assumiu a responsabilidade por todas as decisões tomadas no rescaldo da catástrofe, e procurou encorajar os seus desa­nimados concidadãos, principalmente através da sua enorme coragem e senso comum. Nas palavras de um entusiástico relato publicado na altura, «ao longo das vinte e quatro horas do dia, o seu único alimento eram caldos que a esposa, abrindo caminho pelas ruas cobertas de ruínas, lhe levava à carruagem onde ele trabalhava para recuperar Lisboa».

Pombal, no entanto, depressa começou a exibir o zelo assustador de alguém que tinha descoberto o objectivo da sua vida e que se pre­parava para o impor aos outros pela força. Lisboa voltaria a erguer-se!

Entre os primeiros a responder ao apelo de Pombal, esteve um fí­sico lisboeta chamado José Alvares da Silva, que prefaciou o seu trata­do, intitulado Investigações sobre as Causas Últimas do Terramoto de Lisboa de 1755, com a observação de que a humanidade tem o dever religioso de investigar as operações da natureza de criação divina.

Traçava então algumas das hipóteses correntes referentes às causas naturais dos ter­ramotos, entre elas a libertação súbita de ar comprimido, a deflagração de fogos subterrâneos, e as operações de forças eléctricas no interior das partes sólidas da terra. Passava depois a debater cada uma delas, e terminava reiterando o pedido inicial de Pombal para. que se conti­nuassem as investigações in loco. Álvares da Silva, porém, tinha dado um primeiro passo significativo e, a poucos meses da catástrofe de Lisboa, a sismologia portuguesa tinha-se tornado num campo de investigação distinto dentro da ciência da terra na Europa, uma situação que teria sido absolutamente impensável antes do terramoto, num país como Portugal dominado pelo clero.

Adaptado de Terra- Acontecimentos que mudaram o mundo. Richard Hamblyn. Bertrand Editora

LISBOA – Século XXI !

“Portugal corre um risco de sismo. Não sabemos quando mas sabemos que vai acontecer”, quem afirma é Carlos Sousa Oliveira, responsável pelo Consórcio Riscos. Em entrevista ao Ciência Hoje, o professor do Instituto Superior Técnico (IST), explica que há pouco mais do que planos de intervenção da Protecção Civil se vier um grande sismo.

“O problema sísmico é complicado porque não temos uma actividade sísmica constante, ela é espalhada no tempo, e levanta-nos problemas em termos de uma boa aceitação. Daí tornar-se um pouco difícil convencer as autoridades que é uma questão que tem de ser tratada com todo o cuidado”, afirma Carlos Sousa Oliveira.

Segundo o especialista, os sismos ocorrem com alguma periodicidade. “Nos Açores ocorrem com mais frequência e aí o problema está mais dominado. No Continente, como o espaçamento maior e a memória é curta, as pessoas esquecem-se desse problema. Creio que este é um dos aspectos que tem feito travar mais o assunto”, refere.

 Há possibilidade de virem a ocorrer sismos em Portugal. Já ocorreram no passado, “conhecemos o de 1755, que é o exemplo mais importante de todos”. Mas ultimamente eles não têm acontecido. “Houve um que as pessoas sentiram no dia 17 de Dezembro do ano passado, mas podem vir a acontecer mais, não conseguimos é prever quando”, afirma Carlos Sousa Oliveira. Este último sismo de Dezembro teve uma magnitude 6, mas “se tivesse de 6,5 já causava alguns problemas”. O professor alerta que “nos próximos 30 ou 40 anos é possível que hajam sismos maiores e que possam causar grandes problemas”.

 Definir a perigosidade

Se ocorresse já um sismo amanhã, hipoteticamente, o país não saberia como agir. “Esse é um dos problemas que nós temos, é que não existe um organismo específico para a questão, existe a Autoridade Nacional de Protecção Civil que trabalha fundamentalmente após o sismo”, declara o cientista. “O que nós precisamos é de trabalhar no antes, nas medidas preventivas. E o melhor é pensarmos que vamos iniciar o mais rápido possível essas acções de prevenção e esperar que não ocorra um sismo agora, que venha mais tarde. É muito importante ter uma atitude pró-activa e não deixar passar o tempo porque piora a situação”, sublinha.

Fonte e entrevista completa:  http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=43884&op=all


Lisboa 01.11.1755

Novembro 1, 2008

O Dia em que tudo ruiu

Portugal vive dias de esperança neste ano da graça de 1755. A Casa da Ópera foi inaugurada em Abril para saudar um novo género dramático, que na geração anterior, era apupado em Lisboa. Do Brasil, chegam 125 arrobas de ouro por ano, marcando o auge da exploração do nobre metal brasileiro e restabelecendo o tesouro público que tão desbaratado fora no reinado de D.João V. No Porto, constrói-se, desde 1754, a Torre dos Clérigos e, em Braga, o Palácio do Raio vai ganhando forma.

No dia 1/11/1755, quarteirões inteiros desmembram-se. Concentrados à hora da missa, muitos fiéis foram esmagados pelos escombros das igrejas ou ficaram encurralados por toneladas de entulhos.

O governo reagiu, expedito, à tragédia que, durante aquele mês de Novembro, ceifou a vida de cerca de dez mil lisboetas. Das ruínas do terramoto de Lisboa ergueu-se um líder político consolidado e uma cidade planeada.

Em Novembro de 1755 cerca de dez mil pessoas perderam a vida. Lisboa mudou para sempre.

Ainda hoje, o epicentro do terramoto de 1755 é debatido. Já foram propostos quase uma dezena de locais, quase todos ao largo da costa portuguesa, para sul ou sudoeste. A chave, porém,reside segundo João Duarte Fonseca (investigador do Núcleo de Engenharia Sísmica e Sismologia do IST), numa escala cronológica e não no fundo do mar. A maioria dos relatos estima que o maremoto (depois da sequência de oito minutos de abalos) tardou 75 a 90 minutos a fazer-se sentir em Lisboa e ocorreu simultâneamente com um novo sismo. É essa hora e meia que tem permitido estimar a distância à costa da região epicentral.

Durante anos, pensou-se que o banco submarino de Gorringe seria a solução perfeita, em termos de distância de Lisboa e capaciade para induzir um sismo de 8,5 de magnitude de momento. Mas a análise sistemática dos documentos da época revelou também uma esmagadora diferença entre os efeitos devastadores do sismo em Lisboa e no Algarve e os danos menores provocados na região alentejana intermédia.

Para a sismologia anteiror à década de 1990, a proposta de uma ruptura secundária causada à distância por um terramoto seria encarada da mesma forma que um físico reagiria perante a proposta impossível de que, em determinadas situações, a maçã de Newton poderia subir em vez de descer! O sismo norte-americano de Landers em 1992, provocado pela falha de Santo André, encarregou-se de tornar possível uma ruptura secundária. E João Duarte Fonseca adoptou-a para a explicação do sismo de 1755.

O sismo gerado a sul da costa, poderia ter correspondido um ruptura no vale do Tejo oito minutos depois, suficientemente forte para provocar estranhos fenómenos em Benavente. A tese enunciada teve o condão de recuperar o sismo de 1755 para o centro da polémica.

Historicamente, a controvérsia pode ajudar a explicar a inusitada força do tsunami em Lisboa, cidade protegida por um estuário que teoricamente deveria ter provocado o abrandamento das águas. Mas há consequências bem mais palpáveis se este modelo teórico estiver correcto : toda a previsão de risco sísmico para Lisboa pode ter partido de pressupostos incertos.

Uma explicação diferente têm outros investigadores (Terrinha, Cabral e Matias)

“Existem duas orientações preferenciais para as falhas activas, nomeadamente, próxima de este-oeste, inclinando para norte ou para sul, e aproximadamente norte-sul, inclinando para este. A distribuição da sismicidade sugere que ambos os conjuntos se encontram activos e acomodam a deformação sísmica. O sismo de 1969, de magnitude 7,3 a 7,5 com epicentro na Planície da Ferradura, indica rotura numa falha de orientação próxima de este-oeste, constituindo uma evidência recente de actividade sismogénica importante neste sistema de falhas activas. A distribuição da intensidade sísmica em Portugal continental, durante o sismo de 1755, sugere uma orientação norte-sul para a fonte sismogénica. Assim, a Falha do Marquês de Pombal e a Falha da Ferradura podem estar associadas a uma falha única em profundidade, podendo, desta maneira, atingir uma superfície de área superior à necessária para a rotura que gerou o sismo de 1755, com um comprimento de rotura superficial superior a 220 km.”

 
 

 

 

Fonte :

National Geographic, Novembro 2005;

As Fúrias da Terra, Claude Allégre;

Terrinha, P; Cabral J. ; Matias, L – A tectónica recente e a fonte do grande sismo de Lisboa de 1 de Novembro em 1755.