Exploração das dorsais emersas – Parte I

Outubro 15, 2009

Existem à superfície do Globo duas regiões emersas atraves­sadas por uma dorsal oceânica: a Islândia e a República de Jibuti.

A Islândia é uma ilha de 103 000 km2 e estrutura geológica essencialmente vulcânica. A sua situação setentrional e a his­tória limitam a vegetação a raras pradarias e alguns silvados, de modo que a estrutura geológica pode ser observada com faci­lidade: não é, como nos países tropicais, escondida por vege­tação espessa ou por um tapete de laterite.

Uniformemente, a perder de vista, a paisagem é vulcânica. Na maior parte, trata-se do empilhamento de correntes de lava com espessuras que, por vezes, ultrapassam os 1000 m. Mas estas correntes alter­nam na zona central com verdadeiros vulcões, que criam rele­vos imponentes. Na região norte, não muito longe da cidade de Akureyri, ou na região do lago Myvatn, podemos observar associações de cones vulcânicos de dimensões variadas. O estudo atento destas regiões mostra que os cones se alinham sobre fendas. Na região sul, mais perto de Reiquejavique, encontram-se vulcões extremamente activos, como o Hekla ou o Hemayae, na ilha de Vestmannaeyjar. No centro da ilha a existência de glaciares permanentes dá origem a edifícios vul­cânicos muito específicos: vulcões subglaciares. Como aconteceigualmente sob o mar, as lavas tomam então a forma de almo­fada, sendo, na sua maioria, basálticas.

A cartografia em pormenor realizada pelos geólogos islandeses, pouco numerosos, mas extremamente dinâmicos, reve­lou que o vulcanismo activo actual se reparte por duas bandas, uma oeste-leste, desde a dorsal norte-atlântica de Reykjanes (dorsal onde se detectaram anomalias magnéticas muito peda­gógicas!) até ao glaciar central de Vatnajekull, a outra na direc­ção norte-sul, desde a zona de Mivayten até ao vulcão Hekla, ou mesmo à ilha de Surtsey, a sul. No resto da ilha o vulca­nismo é mais antigo.

Quando se examina minuciosamente a zona activa, verifica-se que é formada por um vale central limitado por falhas nor­mais, desenhando estruturas de extensão típicas. Mais precisa­mente, um estudo recente mostrou que existe comunicação entre aparelhos vulcânicos de formas cónicas e correntes fissurais de lava. O vulcão aparenta alimentar injecções laterais que alcan­çam ou não a superfície. Em resumo, o vulcão será o cone for­necedor, enquanto as lavas serão os excessos evacuados sobre os lados. Tal é a actividade que se observa perto do vulcão Krafla.

No vale central não se detecta uma única fenda por onde a lava subiria continuamente, afastando os bordos, como seria sugerido por uma visão plaquista. As relações entre aparelhos vulcânicos e correntes de lava são extremamente complexas, instalando-se cada novo aparelho mais ou menos ao acaso. O vale central, com 10 km de largura, parece servir de zona fron­teiriça entre placas. A fronteira exacta no interior desta zona é muito mais difícil de determinar.

No exterior do vale os relevos acentuam-se e a idade das rochas aumenta, o que se conforma em absoluto com a ideia que temos da expansão dos fundos oceânicos. Para noroeste, todavia, aparece uma complicação na península de Snaeffelnes, tão cara a Júlio Verne, por se ter podido demonstrar que a actividade vulcânica nesse local era importante há alguns milhões de anos, como se a dorsal médio-oceânica, depois de passar por esta zona, tivesse migrado rapidamente, há cerca de 3 a 5 milhões de anos, para a região de Reiquejavique.

Fonte : A Espuma da Terra – Claude Allègre

Anúncios

Terra sem água nos Oceanos…

Junho 29, 2009


Manto aflora na crosta oceânica

Junho 6, 2009

Nos últimos dois dias, uma média de 600 entradas por dia para o post “Voo AF 447”, tornou este último post no texto mais lido deste blogue. O número de entradas e de alguns comentários recebidos justificam um segundo post sobre a área do acidente e mais uma vez para escrever sobre a geosfera. As coincidências felizes tornaram pertinente o texto exposto abaixo. A infeliz queda da aeronave, um vídeo da National Geographic (ver vídeo) onde se aborda o tema dos “megamullions” e uns textos enviados por mail.

Vamos deixar o Arquipélago de Fernando de Noronha e viajar mais para norte e encontramos junto ao equador o Arquipélago de São Pedro e São Paulo. É um conjunto de pequenas ilhas rochosas que se situa na parte central do Oceano Atlântico Equatorial, distando 627 quilómetros do Arquipélago de Fernando de Noronha e 986 quilómetros de Natal, no estado do Rio Grande do Norte. Na noite de 31 de Maio para 1 de junho de 2009, um acidente aéreo com o voo Air France 447, que saiu do Rio de Janeiro rumo à Paris, ocorreu nas proximidades do arquipélago, causando a morte das 228 pessoas que estavam a bordo do avião.
Era chamado popularmente de “Penedo de São Pedro e São Paulo” ou “Rochedo de São Pedro e São Paulo”, porém hoje em dia é chamado oficialmente de “Arquipélago de São Pedro e São Paulo”. A rocha exposta é peridotito serpentinizado de um megamullion tectonizado, sendo a única exposição mundial do manto abissal acima do nível do mar.
Começa aqui a aventura geológica. Peridotito serpentinizado e um megamullion tectonizado. É apenas objectivo deste blogue divulgar ciência e não tem pretensões de publicar artigos científicos. Apenas manter o rigor científico e escrever numa linguagem acessível para todos.

Assim, peridotitos são rochas que constituem o manto, serpentinizados significa que estas rochas ultramáficas (muito ricas em minerais ferromagnesianos) sofreram metamorfismo.

Em duas palavras o que temos presente nesta região?

O manto a aflorar à superfície. Imagine uma laranja, faça um sulco na casca e separe a crosta um pouco para os lados e deixa exposta a parte branca que cobre os gomos. A parte branca exposta, é o peridotito mantélico. Aqui podemos explorar o manto relativamente recente através de métodos directos, e confirmar alguns dos modelos que temos para o interior da Terra

E um megamullion tectonizado?

Um megamullion, também chamado de um núcleo complexo oceânico (OCC), é uma estrutura com uma geometria elipsoidal em forma de escudo. É essencialmente composto de rochas ultramáficas serpentinizadas com origem no manto abissal. O relevo é de tamanho variável. O megamullion, representa uma estrutura formada em placas oceânicas divergentes, mas em locais onde a divergência é muito lenta. Erupções vulcânicas e intrusões são muito menos frequentes em comparação ao normal ao longo de uma dorsal oceânica. No eixo de expansão destas regiões a fractura típica de vale de rifte não está presente. A expansão ocorre por meio de uma fala de baixo ângulo (falha de descolamento” baixo ângulo falha, chamada de “descolamento” (detachment fault).

Têm sido descobertas janelas mantélicas na crosta oceânica em todo o planeta, uma delas localiza-se nos Açores. O Maciço Saldanha corresponde a uma destas secções do manto expostas à superfície como resultado de uma tectónica de descolamento (detachement tectonics).

Para saber mais


Voo AF 447

Junho 3, 2009

Nos últimos dias a Ilha de São Fernando de Noronha (Brasil) ficou tristemente conhecida devido ao acidente do voo AF 447 que fazia a ligação entre Rio de Janeiro (Brasil) e Paris (França). O acidente terá ocorrido (à data deste post) algures entre a ilha de São Fernando de Noronha e o Arquipélago de Cabo Verde.  São Fernando de Noronha é uma ilha localizada na placa sul americana, enquanto o Arquipélago de Cabo Verde a nordeste, fica localizada na placa africana. Esta ilha terá sido descoberta (fonte : Jaime Cortesão, historiador português), nos anos de 1502-1503 durante uma uma desconhecida expedição, mas da qual existem seguros vestígios. Ela explicaria questões relacionadas à citação da ilha em cartas geográficas do período. No comando da expedição estaria Fernão de Loronha, que em pessoa, iniciava o desbravamento da terra que arrendara para a exploração do pau-brasil. No curso desta viagem, teria descoberto Fernando de Noronha.

Na realidade, Fernando de Noronha é um arquipélago vulcânico isolado no Atlântico Equatorial Sul, sendo sua ilha principal a parte visível de uma cadeia de montanhas submersas (DORSAL MÉDIA DO ATLÂNTICO), situada nas coordenadas geográficas 03 51′ sul e 32 25′ oeste e distando aproximadamente 345 km do cabo de São Roque no estado do Rio Grande do Norte e 545 km de Recife, em Pernambuco. Constituído por 21 ilhas, ilhotas e rochedos de natureza vulcânica, tem a ilha principal uma área de 18,4 km2 cujo maior eixo com cerca de 10 km, largura máxima de 3,5 km e perímetro de 60 km. A base dessa enorme formação vulcânica está a mais de 4.000 metros de profundidade. A ilha principal, cujo nome é o mesmo do arquipélago, constitui 91% da área total, destacando-se ainda as ilhas Rata, Sela Gineta, Cabeluda, São José e as ilhotas do Leão e da Viúva. Estudos realizados demonstram que a formação do arquipélago data de dois a doze milhões de anos.

Ao longo dos últimos dias, além das notícias tristes da morte dos passageiros e tripulantes a bordo deste Airbus da Air France, têm sido referidos os problemas na detecção das “caixas negras” do avião e mesmo na localização dos destroços desta aeronave. A razão principal de dificuldades reside no contexto geológico da região entre os dois arquipélagos, localizados cada um em placas litosféricas divergentes. Os destroços do aparelho deverão estar localizados numa zona de rifte, desta dorsal oceânica. No caso da dorsal oceânica do Atlântico, esta pode apresentar uma largura de 1000 a 2000 km, erguendo-se do fundo com 4000 a 2500m. Alguns dos picos mais altos desta estrutura podem atingir a superfície, originando ilhas oceânicas, caso dos arquipélagos de Fernando Noronha e Cabo Verde.  Ao nível da dorsal, o seu topo é percorrido por uma fossa de abatimento contínua, denominada rifte, com uma profundidade média de 1000m e uma largura de 10 km a 50 km. Geologicamente as dorsais são um dos limites fundamentais ao nível da dinâmica da litosfera.

É neste contexto que os trabalhos de recuperação das “caixas negras” irão decorrer, tornando o trabalho complicado. Imagine procurar destroços numa região montanhosa como os Alpes. Imagine agora os Alpes entre os 4000 e os 2500m de profundidade na ausência de luz. É certo que as famosas “caixas negras” emitem um sinal que pode suportar condições de pressão até 6000 metros de profundidade, mas não deixa de ser um problema complicado de resolver.

Imagem de uma dorsal. As cores azuis representam áres de grande profundidade, enquanto as cores vermelhas representam locais da dorsal que encontram-se emersas (ilhas).