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Migmatitos – rochas de ultrametamorfismo

O que são migmatitos?

Uma definição: um migmatito é uma rocha formada por fusão parcial.

Os migmatitos são desta forma, rochas heterogéneas à escala macroscópica e microscópica. Devido ao processo de fusão parcial, os migmatitos são formados por duas partes distintas: o paleossoma e o nesossoma (Foto 1).

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Foto 1 –  Praia de Lavadores em Terreno Finisterra. Rochas diatexíticas mesocratas onde se pode observar o nesossoma e o paleossoma.

O paleossoma é a parte da rocha que não sofreu fusão parcial. Por exemplo, num afloramento de migmatito proveniente da fusão de xistos pelíticos e anfibolitos (protólito), se o anfibolito não fundiu, este é denominado de paleossoma.

O nesossoma é porção nova da rocha resultante da fusão da rocha original, também denominada de protólito. O nesossoma pode ainda ser dividido em leucossoma  (constituído por minerais félsicos) Foto 2,  e melanossoma (constituído por minerais máficos).

 

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Foto 2 – Leucossoma à direita. Constituído por minerais félsicos. Terreno Finisterra – Lavadores.

As rochas migmatíticas são rochas formadas em condições de ultrametamorfismo, na transição do domínio metamórfico para o domínio magmático.

Os migmatitos designam-se por Metatexitos ou Diatexitos consoante a fração fundida (melt) gerada durante os processos de fusão parcial.

Os metatexitos são rochas heterogéneas à escala macroscópica onde as estruturas anteriores à fusão parcial se encontram preservadas (paleossoma) e a fração de nesossoma é baixa, Foto 3.

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Foto 3 – Metatexito (Praia da Madalena – Terreno Finisterra). Nas Praias de Madalena Norte e de Madalena Sul afloram litologias migmatíticas, com larga predominância de metaxistos. Estas rochas apresentam foliação bem marcada no paleossoma metapelítico a quartzo-pelítico.

Nos diatexitos, Foto 4 e 5,  o nesossoma é dominante, as estruturas anteriores à fusão parcial estão ausentes o nesossoma e podem ser substituídas por estruturas de fluxo.

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Foto 4 – Diatexitos na Praia das Pedras Amarelas (Terreno Finisterra). As litologias diatexíticas afloram sobretudo na zona da Praia das Pedras Amarelas e na Praia de Salgueiros. Estas rochas apresentam características consonantes com as descritas por Sawyer (2008). Predominam rochas leucocratas sem foliação ou com foliação mais ou menos incipiente, com um padrão de orientação muito irregular. É a cor amarelada desta litologia predominante que é responsável pela designação da Praia.

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Foto 5 – Diatexitos com melanossoma (constituído por minerais máficos). Predomínio das rochas diatexíticas mesocratas finas com abundantes restitos, tendência porfiróide, e frequentes lentículas e vénulas pegmatíticas. O afloramento deste maciço destaca-se do ponto de vista morfológico, relativamente ao granito de Lavadores, por não ocorrerem os grandes blocos arredondados

Contexto geológico

Associada à evolução das cadeias orogénicas, no território português ocorreram importantes episódios de fusão parcial da crosta continental, como é evidenciado pela génese e exumação de maciços migmatíticos e graníticos, no geral intimamente relacionados.

Na zona costeira de Lavadores-Madalena afloram rochas gnaisso-migmatíticas diatexíticas e metatexíticas, constituindo o bordo ocidental do maciço granítico postectónico de Lavadores, datado de 298 Ma.

Estas rochas estão englobadas na Unidade de Lourosa e pertencem ao Terreno Finisterra (um antigo continente). Do ponto de vista geotectónico este setor costeiro corresponde ao limite entre o Terreno Ibérico (Zona Centro Ibérica) e o Terreno Finisterra (Unidade de Lourosa) materializado na Zona de Cisalhamento Porto-Tomar, Foto 6. As rochas migmatíticas apresentam deformação varisca, de caráter cisalhante direito, mais evidente nos setores em que predominam rochas metatexíticas.

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Foto 6 –  Contacto intrusivo do Granito de Lavadores e os migmatitos do Terreno Finisterra. No seu conjunto, este maciço metamórfico, aflorante numa faixa costeira estreita e irregular, no contacto ocidental do maciço granítico de Lavadores, apresenta variações consideráveis por predominância de diferentes litologias: na Praia das Pedras Amarelas é notória uma predominância de fácies diatexíticas, com predominância de rochas leucocratas, ainda que tendo associadas de modo subordinado fácies mesocratas de granularidade fina essencialmente biotíticas. Nas Praias de Madalena Norte e de Madalena Sul são predominantes as fácies metatexíticas. O maciço não aflora de modo contínuo, quer devido à geometria do contacto intrusivo do Granito de Lavadores, quer porque fica tapado por depósitos arenosos do Quaternário, já um pouco consolidados, e pelos depósitos de praia actual.

Fontes: 

http://www.ufmt.br/fageo/arquivos/ee7508ffb680ec1e6f37937ef6ca2920.pdf

https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/36314/1/Litologias%20gnaisso-migmatiticas.pdf?ln=pt-pt

Maclas de Karlsbad

Em Lavadores não é preciso andar muito para uma aula de Geologia. Sentado nestes granitos enquanto se admira a paisagem e a alma aquece com o sol de uma tarde de Inverno, os olhos fixam-se nos megacristais salientes que dão uma textura particular a este granito, famoso – o Granito de Lavadores!
Nos megacristais, a incidência da luz solar permite verificar a existência de um plano que divide o megacristal em duas zonas com diferente orientação cristalográfica – plano de macla (macla de Karlsbad).
Karlsbad! Não é preciso ir à Alemanha para admirar estas maclas.  Longe vão os dias de mineralogia, onde de nicóis cruzados rodando a platina estes feldspatos eram o motivo de questões por parte do Professor Fernando Barriga. Fui buscar um livro que era a “bíblia” e o “terror” das aulas de Cristalografia – “Elementos de Cristalografia, Frederico Sodré Borges”. Fica aqui a poesia de um megacristal, numa tarde de sábado junto ao mar.

As geminações (ou maclas) constituem um tipo especial de imper­feição estrutural dos cristais.

A primeira descrição de maclas deve-se a R. de L’Isle (1783), num estudo sobre a estaurolite. As maclas deste mineral foram também as primeiras a serem objecto de um estudo preciso (R. J. Haiiy, em 1801). Desde então, as maclas têm sido investigadas em diferentes domínios de ciências de materiais (designadamente, Mine­ralogia, Petrologia e Metalurgia), sendo ainda um assunto aberto à investigação.

Seguindo a Escola francesa, uma macla pode ser definida como um edifício cristalino não homogéneo, constituído por duas ou mais porções homogéneas da mesma espécie cristalina, justapostas de acordo com leis bem definidas.

Cada porção homogénea é, muitas vezes, incorrectamente desi­gnada por cristal individual; daí a falácia de definir macla como uma «associação mútua, regular, de cristais da mesma espécie cristalina». Igualmente falaciosa é a descrição de macia como um «edifício policristalino».

A justaposição das partes homogéneas que constituem uma macla corresponde a uma região em que a estrutura cristalina ideal é pertur­bada. Por outras palavras, ela corresponde a um tipo particular de junção intergranular. O problema crucial que se põe é, portanto, o da distinção entre uma macla e as associações casuais de cristais.

O critério, empiricamente estabelecido, é o da existência de uma relação de orientação bem definida (designada por lei de macla) entre as porções homogéneas que constituem o edifício cristalino. Mais precisamente, cada «indivíduo» componente da macla deve ter uma orientação que resulte da de outro, mediante uma operação de simetria cristalograficamente possível. Mais, esse modo de associação deve ser encontrado num número significativo de amostras, para que se excluam situações acidentais.

Fonte :

Elementos de Cristalografia – Frederico Sodré Borges

Matos Alves, C.A .,1966. Os encraves granulares do Granito de Lavadores (Vila Nova de Gaia). Rev. Fac.Ciências, 2ª Série-C, vol.XIV (1º fasc.): 51-60.

 

 

Granito Broa

Mais um interesse didáctico na saída de campo a Lavadores. Um fenómeno curioso ali bem perto da “Casa Branca”.  Um “granito broa”. Confesso que vindo de terras mouriscas, não conhecia este fenómeno tão nortenho – Granito Broa. Mais habituado ao trigo e ao centeio, reconheço que este fenómeno têm sido motivo de interesse desde que visitei Albergaria da Serra. Em Lavadores – Gaia  encontro também o granito broa.

O  bloco granítico  apresenta uma alteração em fissuração poligonal. De acordo com Rochette Cordeiro (1994a; 1994b; 2004), estas formas enquadram-se nas microformas geneticamente relacionadas com uma fase posterior à exposição das superfícies e com relação evidente com a estrutura. São formas constituídas por uma rede poligonal de fissuras de baixa profundidade. A sua génese estará relacionada com um conjunto de processos bastante complexos, directamente relacionados com desequilíbrios nas plaquetas exteriores da rocha.

A explicação pode ser muito científica, mas decididamente os geólogos têm um gosto enorme pela culinária e mesmo pela vinicultura (recordo-me dos “Xistos borras de vinho”, uma formação existente no Alentejo).