Etiqueta: Granitos

Granitóides Variscos (Classificação)

Este é um primeiro “post” sobre as rochas ígneas em Portugal Continental. Na zona norte do território português são abundantes as rochas ígneas plutónicas, quase todas elas geradas durante a colisão  que deu origem à Cadeia Varisca. Neste primeiro “post” há uma tentativa de esclarecer a classificação das rochas granitóides da Zona Centro Ibérica (ZCI) e enquadrar a sua génese no contexto das diferentes fases orogénicas. 

A Zona Centro-Ibérica (ZCI) é o segmento da Cadeia Varisca Europeia onde as rochas graníticas afloram em maior extensão e apresentam uma maior diversidade tipológica.

A caracterização petrográfica, geoquímica, isotópica e estrutural desses granitóides pode, por isso, contribuir significativamente tanto para a identificação dos mecanismos responsáveis pela produção e diversificação de magmas graníticos em contexto colisional, como para a reconstituição das condições tectonometamórficas prevalecentes durante a orogenia varisca, Foto 1, sendo por isso importantes indicadores geocronológicos, uma vez que limitam temporalmente a deformação que lhes está associada.

Granito Vale das Gatas (orógeno Varisco)-6

Foto 1 –  A Cadeia Varisca foi o resultado da colisão entre dois grandes blocos continentais: Laurásia a norte e Gondwana a sul.  Associada à evolução geodinâmica desta cadeia  orogénica paleozóica ocorreu importante fusão parcial da crosta continental, como é evidenciado  pela génese e exumação de maciços migmatíticos  e graníticos, no geral intimamente relacionados. (Fonte do esquema : https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1674987114000310)

Classificação dos granitóides varisco

Os granitóides variscos da ZCI têm sido classificados em diferentes grupos com base em critérios petrográficos, geoquímicos, estruturais e geocronológicos. Estudos estruturais mais recentes demonstraram que o plutonismo granítico de idade varisca só ocorreu em estádios relativamente tardios da orogenia e está preferencialmente relacionado com a última fase de deformação dúctil (D3). Tendo como base as relações temporais com a deformação, subdividiram-se os granitóides variscos em quatro grandes grupos: ante-D3, sin- D3, tardi- D3 e pós- D3. Neste esquema de classificação, as escassas intrusões de granitóides com idades compreendidas entre o Proterozoico Superior e o Paleozóico Inferior são referidas como pré-variscas, Foto 2.

Granito Vale das Gatas (Classificação dos Granitóides)

Foto 2 –  Cronologia da génese dos granitoides e das rochas máficas e ultramáficas na tectogénese varisca, cartografados em diferentes Zonas da Placa Ibérica. Em fundo, um pormenor do granito de Vale das Gatas (Vila Real). A região de Vila Real encontra-se localizada no bordo de um extenso maciço formado por granitos variscos sin- a tarditectónicos relativamente a D3 onde diferentes tipos de granitos de duas micas ocorrem.  O  granito de Vale das Gatas (de grão médio, porfiróide, moscovítico-biotítico) apresenta evidências de uma foliação magmática conferida pela orientação dos fenocristais de feldspato, biotite e, mais raramente, moscovite. Este granito aparenta ter sido deformado pela fase D3 antes de estar completamente consolidados, o que justifica a existência de uma estruturação interna magmática planar, com direção concordante com as estruturas regionais (granitos sin-D3). (Fonte do esquema : https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1674987114000310)

Com base em estudos geocronológicos realizados em diversos maciços graníticos do centro e norte de Portugal é possível distinguir dois grandes ciclos de actividade magmática varisca na ZCI, correspondendo respectivamente à instalação dos granitóides sin-D3 (≈ 320-310 Ma) e dos granitóides tardi-pós-D3 (≈ 310-290 Ma), Foto 3.

Granitóides

Foto 3 – Dois grandes ciclos de atividade magmática varisca na Zona Centro Ibérica (ZCI. (Fonte do esquema : https://ria.ua.pt/handle/10773/13089)

Interpretação Genética da atividade magmática varisca na ZCI.

Os leucogranitos e granitos de duas micas sin-D3 têm sido interpretados como produtos da fusão parcial de protólitos da parte média da crusta continental durante o clímax do metamorfismo regional. Existem, contudo, diferentes perspectivas sobre a natureza dos materiais crustais envolvidos na sua petrogénese. Alguns autores defendem que as características geoquímicas e isotópicas dos granitóides peraluminosos sin-D3 (tipo-S) são compatíveis com moderados graus de fusão parcial de rochas exclusivamente metassedimentares (metapelitos e/ou metagrauvaques) hidratadas.

Outros investigadores consideram que os principais reservatórios parentais têm composições ortognáissicas. Noutros modelos ainda, admite-se uma origem por fusão parcial, em condições de deficiência em água, de metassedimentos imaturos e/ou de rochas félsicas metaígneas.

Em geral, atribui-se aos granodioritos e granitos biotíticos, sin- e tardi-pós-D3 uma filiação I (ígnea) ou transicional I-S e uma origem mais profunda, seja por anatexia de materiais da crusta inferior, seja por hibridização entre fundidos félsicos crustais e magmas máficos derivados do manto.

Podemos assim concluir que as espessas séries de sedimentos do Neoporoterozoico – Paleozoico inferior, com elevada representatividade no norte de Portugal soferam durante a orogenia varisca uma evolução complexa no final do Paleozoico. Durante esta fase final da orogenia varisca ocorreu um abundante magmatismo que caracteriza a Zona Centro Ibérica e cuja génese está diretamente associada a fenómenos de deformação gerados após a colisão continental. Atendendo aos diversos processos que estão na base da su génese e evolção, os granitoides da ZCI apresentam elevada diversidade tipológica, reconhecendo-se por isso a utilidade da sua classificação.

Fontes consultadas :

  1. https://ria.ua.pt/handle/10773/13089
  2. http://www.lneg.pt/download/9542/44_2867_ART_CG14_ESPECIAL_I.pdf

 

Braga – Cidades de informação geológica

Uma viagem ao Magmatismo e ao  Barroco de Braga. Entre os recursos geológicos e o património cultural.

O concelho de Braga localiza-se em pleno Minho, no noroeste de Portugal.

As rochas estiveram desde sempre ligadas ao património cultural, como blocos de alvenaria ou elementos decorativos diversos, integrados em edificações ou isolados. Neste post alguns dos aspetos da relação entre os estudos geológicos e o património cultural estão ilustrados.

As rochas utilizadas no património traduzem relações entre esses recursos geológicos e tendências culturais, acompanhando evoluções históricas. Nas obras mais antigas dominam os recursos locais, dada a grande importância dos processos de transporte. Consequentemente, certos objetos podem representar situações de elevado interesse histórico pelo contraste geológico com o enquadramento local, funcionando, tal como as moedas e as cerâmicas, como indicadores de movimentos de importação. Existe uma pasta que pode ser consultada para estes recursos geológicos globais (pode ser consultada a pasta geral aqui). Procuro aqui apenas dar relevo ao chamado “granito de Braga”, apesar de não serem todos os monumentos construidos com o granito escuro de Braga. Aliás na cidade de Braga é possível reconhecer a presença de outros granitos (diferentes do chamado “granito de Braga”), merecendo destaque a presença de certos granitos muito claros, Foto 1, (contrastando com o tal granito de Braga, mais escuro, acinzentado ou amarelado.

Igreja do Carmo Granito (Braga)

Foto 1 – Visão geral da fachada principal da Igreja do Carmo construída com um material granítico muito claro. Estes granitos mais claros são semelhantes a rochas que ocorrem fora da zona da cidade de Braga.

Contexto Geológico

As rochas granitóides são as que têm maior representação no concelho de Braga e estão associadas à orogenia varisca, nomeadamente a uma das últimas fases de deformação dúctil-3 (D3) distribuindo-se em faixas grosseiramente paralelas à zona de cisalhamento Vigo-Régua.

Apresentam fácies variadas,  Figura 1,  e associam-se, por vezes, a rochas de composição intermédia a básica. Podemos, então, distinguir granitos de duas micas, leucogranitos, granitos biotíticos e granodioritos, sendo dominantes os granitos essencialmente biotíticos porfiróides. Viajar no Barroco de Braga é uma viagem ao magmatismo da Orogenia Varisca nas últimas fases do chamado Ciclo de Wilson.

Granito de Braga

Figura 1 – Carta geológica simplificada de Braga. Os granitóides variscos na Zona Centro Ibérica podem ser classificados em dois grandes grupos: granitóides sin-tectónicos e granitóides tardi-pós-tectónicos. Na zona de Braga os granitos tardi-pós-tectónicos estão representados por tardi (Complexo Granítico de Celeirós – que engloba os Granitos de Celeirós e Vieira do Minho e os Granodioritos de Figueiredo; Complexo Granítico da Póvoa de Lanhoso – constituído pelos Granitos de Agrela e de Pousadela; o Complexo Granítico de Braga – de que fazem parte o Granito de Gonça, o Granito de Braga e rochas de composição gabro-grano-diorítica, considerando-se de 310-305 Ma a idade da sua instalação) e pós-tectónicos com aproximadamente 300 Ma (Granito de Briteiros).

Os granitos tardi-pós-tectónicos (Granito de Braga) são caracterizados por intrusões de dimensões batolíticas de granito porfiróide de grão médio a grosseiro biotítico ou por pequenos corpos básicos e intermédios. Ocorrem encraves microgranulares máficos, Foto1, com zonas de mistura de magmas. Ausência de deformação e foliação de fluxo magmático concordante com contactos são outra das características destes granitóides.

Granito (Braga)-34

Foto 1 – Granito biotítico, com rara moscovite, porfiróide ou de tendência porfiróide e de grão médio a fino. Os minerais essenciais são o quartzo, a biotite e o feldspato, apresentando-se este último sob a forma de megacristais. A cor cinzenta azulada é devida ao elevado teor em biotite, que se estima visualmente entre 15 e 20 %. Para além de quartzo, feldspato e biotite podem ser encontrados outros minerais, como zircão, ilmenite, moscovite, epídoto, torite e uraninite. O granito de Braga apresenta encraves microgranulares máficos, com dimensão variável entre 2 a 30 cm e forma circular, elíptica ou ovalada.

Os encraves microgranulares máficos, Foto 1,  revelam composição minerológica diferente da dos granitos hospedeiros, mas em que a biotite é o único máfico presente. Estes dados apoiam a hipótese de que os encraves resultaram de um magma com composição distinta (mais máfica) do magma que originou os granitos hospedeiros. Assim, a hipótese mais provável é a de que os granitos de Braga terão uma origem ígnea que resultou da cristalização de dois magmas associados, o magma granítico e outro máfico, Figura 2. Os encraves microgranulares representarão “gotas” de magma máfico transportadas pelos líquidos graníticos aquando da sua ascenção para níveis superiores da crosta.

Granito (Braga)-32

Sem Título-4

Foto 2 e Figura 2 – Presença de xenólitos migmatíticos e possível interpretação do processo de hibridização de magmas.  A migmatização dos níveis crustais profundos terá ocorrido durante o adelgaçamento crustal durante a Fase extencional D2 (335Ma). A ascensão dos granitóides (granito de Braga) terá ocorrido durante o estádio final do regie transcorrente atingindo o seu nível de instalação após D3.

 

Um passeio pelos monumentos da cidade de Braga permitem através da observação do património compreender  as relações entre os recursos geológicos e tendências culturais, acompanhando evoluções históricas.

Para consultar o álbum clique aqui.

Fontes consultadas:

https://www.researchgate.net/publication/284760616_Origem_e_instalacao_de_granitoides_variscos_na_Zona_Centro-Iberica

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1342937X05707334

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/002449379490040X

https://www.researchgate.net/publication/229305184_U-Pb_zircon_and_monazite_geochronology_of_post-collisional_Hercynian_granitoids_from_the_Central_Iberian_Zone_Northern_Portugal

https://www.researchgate.net/publication/234447957_Variscan_calc-alkaline_plutonism_in_Iberia_Northern_Portugal_petrogenesis_and_distribution_in_space_and_time

 

 

 

Rapakivi

Rapakivi – (do finlandês significando rocha friável, rocha podre). Esta palavra foi originalmente utilizada para designar um tipo de granito da Finlândia que se alterava facilmente produzindo um amontoado de saprolito grosseiro. Mais tarde estudos petrológicos realizados por Sederholm (1891) mostraram que esta facilidade para se alterar estava associada a um tipo particular de textura na qual feldspatos potássicos ovóides (B) eram circundados por plagioclases sódicas (A).

Fotografia de um granito com textura Rapakivi – Universidade do Minho

Actualmente alguns autores ampliaram o uso do termo rapakivi para toda textura onde um feldspato potássico é recoberto por uma fase mais sódica, mesmo que este núcleo não apresente forma ovóide, sendo que o termo rapakivi tanto é utilizado para se refirir à textura anteriormente citada como para denominar o granito que a apresenta, isto é, granito rapakivi (aquele com textura rapakivi). Contrariamente, temos textura anti-rapakivi quando um feldspato com núcleo sódico é evolvido pro K-feldspato (feldspato potássico).

Fonte : http://www.dicionario.pro.br/dicionario/index.php/Rapakivi

Dijunção Esferoidal

Muitas rochas formam-se em condições de pressão e de temperatura (origem profunda) muito diferentes daquelas que se verificam na superfície da Terra. Quando, por acção de movimentos tectónicos, estas rochas são expostas à superfície, sofrem uma descompressão. Deste processo pode resultar a formação de diáclases (famílias de fracturas) ou a formação de capas concêntricas (semelhantes às escamas carnudas de uma cebola) em torno de um núcleo mais resistente da rocha – dijunção esferoidal. Qualquer um dos fenómenos acima mencionados facilita a actuação dos processos de meteorização e conduzem à desagregação da rocha.

Dijunção esferóidal – Praia da Madalena (Gaia) – PT