Serra do Caramulo

Introdução

Situa-se no Maciço Hespérico, na extremidade ocidental da Zona Centro-Ibérica, estendendo-se até ao limite da Zona de Ossa-Morena. Ocupa a parte centro – ocidental da Península Ibérica constitui o fragmento mais contínuo do Soco Hercínico Europeu.

Numa escala mais local, integra-se no flanco sul do denominado plutonometamórfico Porto-Tondela, que corresponde a uma antiforma, provavelmente da terceira fase da Orogenia Varisca, em cujo núcleo afloram diversos tipos de granitoides.
Carta Geológica

Foto 1 – Carta Geológica – Resumidamente, em termos litológicos, a Serra do Caramulo é constituída maioritariamente por xistos, granitos e depósitos sedimentares. Os xistos pertencem à formação do Grupo das Beiras, incluídas no Supergrupo Dúrico-Beirão ou “Complexo Xisto-Grauváquico” (CXG) que se encontra estruturada com uma orientação predominante WNW-ESE. Atualmente, a generalidade dos autores, de forma consensual, divide o CXG em Grupo do Douro e Grupo das Beiras.

Complexo Xisto-Grauváquico (CXG)

Na área em estudo afloram litologias correspondentes ao Grupo das Beiras.
O Grupo das Beiras é constituído sobretudo por xistos argilosos e metagrauvaques, formando uma sucessão do tipo “flysh” muito espessa.
Em plena concordância com os xistos e grauvaques, surgem espessas bancadas de conglomerados.

O Grupo das Beiras embora se encontre geralmente afetado por metamorfismo regional, que não ultrapassa a zona da clorite da fácies dos xistos verdes, na bordadura das massas granitoides encontra-se metamorfizado para xistos mosqueados e corneanas.
Apresenta extensas áreas metamorfizadas por contacto, com maior expressividade na Serra da Lousã, na área de Mortágua – Caramulo, os granitos hercínicos provocam auréolas de contacto mais estreitas. O Grupo das Beiras encontra-se intensamente dobrado, predominando as dobras com planos NW-SE a E-W.

De acordo com Medina (1996), no Grupo das Beiras têm sido identificadas várias sequências litoestratigráficas localizadas em áreas distintas. Tradicionalmente são interpretadas como depósitos turbidíticos, mas recentemente têm sido propostos ambientes de plataforma siliciclástica e glacioderivados para algumas áreas.

O Grupo das Beiras encontra-se representado na Carta Geológica à escala 1:500 000 (1992) constituído por quatro formações consideradas de idade câmbrica, que da base para o topo são:

  • Formação da Malpica do Tejo (Unidade I): caracterizada genericamente pela forte predominância de grauvaques relativamente aos pelitos.
  • Formação de Perais (Unidade II) : caracterizada por possuir proporção semelhante de filitos e metagrauvaques.
  • Formação do Rosmaninhal (Unidade III): caracterizada por uma possante sequência pelítica, onde se encontram intercalados diversos níveis de microconglomerados, conglomerados e bancadas métricas de grauvaque. Apresenta espessura superior a 100 m.
  • Formação de Almaceda (Unidade IV): caracterizada pela predominância de grauvaques relativamente aos pelitos, com espessura métrica, podendo, por vezes, conter clastos de argila no seu interior.

Na região do Caramulo-Buçaco o Grupo das Beiras é interpretado, por Medina (1996) como tendo sido depositado num ambiente de sedimentação característico de plataforma externa siliciclástica. As datações radiométricas são escassas e são fornecidas por rochas ígneas intrusivas, sugerindo uma idade pré-câmbrica para o Grupo das Beiras.

Grupo das Beiras   Foto 2 – O CXG da é constituído por um conjunto litológico bastante homogéneo de predominância pelítica, encontrando-se estruturado com uma orientação predominante WNW-ESE podendo nuns locais existir um predomínio de estratos arenosos, enquanto que noutros locais há um predomínio de material silto-argiloso (Medina, 1996).

 

Xisto com nódulos de andaluzite

Foto 3 – Na parte meridional da Serra do Caramulo, mais afastada do granito, predominam os xistos argilosos, macios, cinzentos, e os xistos cloríticos, esverdeados e com poucas micas. Na zona N e NE, acentuam-se de forma progressiva as manifestações de metamorfismo, com o aparecimento de mica preta e mesmo de andaluzite, em certos pontos.

 

Dobras Ptigmáticas (Sanfins)

Foto 4 – Com a aproximação da rocha ígnea, especialmente do lado NE do afloramento granítico do Caramulo correspondente ao teto da intrusão (em relação à rocha encaixante), surgem fenómenos de migmatização, que se acentua, progressivamente até à passagem a migmatitos francos em alguns pontos (Martins, 1962).

Conglomerados

Intercalados nos xistos e com eles concordantes, surgem leitos conglomeráticos de espessura variável (umas vezes forma faixas com largura apreciável, outras fica reduzido a simples bancadas isoladas, ou estreita e desaparece em cunha no meio dos xistos). Os conglomerados adquirem maior desenvolvimento na zona situada entre as povoações de Varzielas e de Covelo, que em alguns casos, ultrapassa os 500 m e apresentam uma geometria lenticular.

Metaconglomerado

Foto 5 – Os conglomerados são constituídos por abundantes elementos quartzosos, bem rolados, os quais evidenciam quase sempre acentuada deformação secundária, concordante com a deformação tectónica. A matriz é também muito quartzosa e micácea. Fundamentalmente, o conglomerado conserva o mesmo aspeto nos diferentes afloramentos da região, as variações mais importantes são ao nível do grau e natureza da deformação e no diferente calibre dos respetivos elementos. A cristalinidade da rocha, também variável, parece especialmente relacionada com a proximidade do granito.

Xistos carbonosos

Entre as duas faixas dos quartzitos brancos afloram xistos luzentes, xistos carbonosos e quartzitos impuros, amarelados e um tanto micáceos. Os xistos carbonosos apresentam-se, no geral, fortemente metamorfizados, preenchidos por grandes quantidades de granadas e de quiastolite.
Os xistos carbonosos, com quiastolite e granadas, que afloram entre os quartzitos, começam a aparecer no ponto onde se inicia a divergência das duas faixas quartzíticas, continuando depois a aflorar entre uma e outra.

Xisto com andaluzite

Foto 6 – Xisto com quiastolite (variedade de andaluzite)

Granitos

O batólito granítico das Beiras, localizado na Zona Centro Ibérica, implantou-se em metassedimentos de idade Proterozoica-Câmbrico a Cabonífero superior, deformadas pelas diferentes fases da Orogenia Varisca (D1, D2 e D3). Este batólito compreende várias unidades intrusivas, agrupadas em quatro tipos de granitoides: granodiorito-monzogranito sin-D3, granito de duas micas peraluminoso sin-D3/leucogranito, granodiorito-monzogranito tardi-pós-D3 e granito peraluminoso, biotítico-moscovítico, tardi-pós-D3 (Azevedo et al., 2005).

Granito do Caramulo

Foto 7 – A maior parte da área em estudo é formada por granitos que resultaram da consolidação de um magma comum e que ocorreu ao longo de um período estimado radiometricamente em 330-310 M.a. de grosso modo, contemporâneo da terceira fase de deformação varisca. São granitos alcalinos de duas micas, de grão fino e médio, raramente porfiroides.

O granito é particularmente heterogéneo. Além das variações laterais, essencialmente de textura e granularidade, apresenta, na área em estudo, novos aspetos que refletem a influência de fenómenos de endomorfismo e, mesmo migmatismo, em escala apreciável, que progressivamente se acentuam à medida que se afasta do Caramulo para noroeste, em direção à região do Porto.

Os granitos de grão fino a médio localizam-se na zona do plutonito do Caramulo, onde cerca de 99% das massas de diversos granitoides, com grau de médio a fino, apresentam homogeneidade, cortado por veios, filões e algumas bolsadas de aplitos e pegmatitos.

Na zona de contacto entre o plutonito do Caramulo com os xistos surgem auréolas de metamorfismo. Ao longo do que se pode considerar o eixo da referida antiforma, com orientação na direção Porto – Tondela e que sofreu desnudação desde a Orogenia Varisca (Serra da Urgeira), formou-se o complexo metassedimentar, paralelo ao referido eixo, que inflete para N na zona de Silvares.

Na zona de contacto das rochas graníticas com os xistos e as rochas do CXG ocorre a formação de rochas migmatíticas de contacto, por injeção de fluídos graníticos. Contudo, este fenómeno de migmatização não se verifica à escala regional.

Martins (1962) atribui a designação de “zonas xisto-granito-migmatíticas” às zonas de xistos de formação metassedimentar intercaladas com massas graníticas. O granito surge sob a forma de injeções locais e filões a N do Caramulo, de Rebordinho e à volta de Pinheiro de Lafões e sob a forma de micaxistos e migmatitos a S do rio Alcofra. De um modo geral, os xistos conservam à volta do plutonito uma disposição concordante em relação à zona de contacto.

Deformação

Uma zona constituída por rochas antigas, como é o caso da Serra do Caramulo, é natural que tenha sido, repetidamente, submetida a intensas ações tectónicas, ao longo da sua evolução geológica (Martins, 1962). Segundo o mesmo autor, está suficientemente demonstrado que as Orogenias Caledónica, Varisca e Alpina se fizeram sentir, com maior ou menor intensidade, no nosso país, e a elas se devem, certamente, os mais importantes traços estruturais que caracterizam a Serra do Caramulo.

A Serra do Caramulo enquadra-se numa ampla e complexa mega-estrutura antiformal, que se situa entre as sinformas ordovícicas de Porto-Sátão, a N, e a do Buçaco, a S, onde no seu interior aflora a faixa plutonometamórfica Porto-Tondela.

A estruturação das rochas encontrada na área estudada é, basicamente, o resultado da deformação varisca. Reconhecem-se duas fases principais de deformação, às quais se seguiram outras deformações mais tardias e alguns episódios de fraturação. Nos materiais pré-ordovícicos, a primeira fase de deformação (F1) foi a que causou maior deformação, especialmente na parte central e sul, enquanto que a segunda fase se deformação (F2) atuou especialmente na parte nordeste.

Geoformas Graníticas

A diversidade da morfologia granítica e sua originalidade imprime um cunho muito próprio e único às áreas de montanha granítica, como no caso da Serra do Caramulo.

Podemos identificar na Serra do Caramulo um diversificado conjunto de paisagens características das áreas graníticas: paisagens de “caos de blocos”, paisagens de relevos residuais e associadas a estas paisagens estão as formas graníticas. A génese e evolução destas formas graníticas foi proporcionada por um conjunto de factores (de ordem climática, litológica e estrutural), interligados entre si, que se conjugaram para o aparecimento de uma enorme variedade de formas, que podem ser subdivididas em dois grandes grupos: as formas de pormenor, de dimensão centimétrica a métrica (pias, tafoni, fendas e sulcos lineares) e as formas maiores, de dimensão hectométrica ou quilométrica (tors, castle koppie, domos rochosos e alvéolos).

Fissuração poligonal (Polygonal weathering)

Foto 8 – Fissuração Poligonal (Polygonal weathering)

Bloco (Boulder)

Foto 9 – Bloco (Boulder)

Bloco Pedunculado (mushroom shaped form)

Foto 10 – Bloco Pedunculado (mushroom shaped form)

Fonte :

Medina, J., 1988. Contribuição para o conhecimento da litoestratigrafia e da estrutura do complexo xisto-grauváquico ante-ordovícico na região do Caramulo – Portugal. Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro (Provas de aptidão pedagógica e capacidade científica).
Medina, J.; Rodriguez Alonso, M. D.; Bernardes, C. A., 1989. Litoestratigrafia e estrutura do complexo xisto-grauváquico na região do Caramulo – Portugal. Geociências, Revista Universidade de Aveiro, Vol. 4, fasc. 1
Medina, J., 1996. Contribuição para o conhecimento da geologia do Grupo das Beiras (CXG) na região de Caramulo-Buçaco (Portugal central). Tese de Doutoramento da Universidade de Aveiro

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Vulcanismo nos Açores

No dia 27 de Setembro de 1957, pelas 6:45 da madrugada, uma erupção vulcânica iniciou-se junto aos ilhéus dos Capelinhos, na Ilha do Faial – Arquipélago dos Açores, depois de 12 dias de abalos sísmicos. O fenómeno surgiu no mar, a 20-60 metros de profundidade, com a emissão de vapor de água e gases. A erupção, do tipo surtseiano, prolongou-se por 7 meses e meio. Durante esta fase sucediam-se grandes explosões, com a emissão de jactos pontiagudos de cinzas negras e densas nuvens de vapor de água, devido ao contacto da lava incandescente com a água fria do mar. Logo no início, formou-se uma pequena ilhota, baptizada de Ilha Nova, que atingiu 100 metros de altitude. O vulcão era incerto e os períodos de maior actividade alternavam com outros de acalmia. Durante os abrandamentos da erupção, ocorriam afundamentos das vertentes do cone, levando mesmo à submersão da Ilha Nova. No entanto, as frequentes emissões de cinzas criaram novas ilhas que acabaram por se ligar à costa antiga da ilha do Faial através de um istmo.

Fonte do Texto : http://siaram.azores.gov.pt/vulcanismo/vulcao-capelinhos/_texto.html

 

Reservas de gás no Algarve

O Algarve tem reservas de gás para 15 anos de consumo.

António Costa Silva, presidente executivo da Partex Oil &gás numa entrevista ao Expresso (25 de Setembro 2010), refere que  as reservas de gás natural exis­tentes no offshore algarvio são 20 vezes maiores do que as iden­tificadas na costa espanhola. A sua exploração reduziria a fatura energética de Portugal em mais de 100O milhões de euros por ano.

Em relação ao enquadramento geológico, ainda segundo a Partex Oil & gás há uma correlação grande en­tre a geologia do offshore de Portugal e a da zona da Terra Nova, onde há reservas de qua­se 1OOO milhões de barris de pe­tróleo. A empresa nortea mericana Paxton perfurou um poço no offshore português e o óleo encontrado é muito semelhante ao da Terra Nova. Se analisar­mos as descobertas no offshore da Mauritânia, também encon­tramos similaridades com a cos­ta portuguesa.

 “Desde 2002, quando o concurso terminou, a Repsol apresentou-se a concurso, é um concurso internacional aberto, a Repsol ganhou e hoje estamos senão me engano em 2010”, ironizou o especialista em pesquisa de gás natural e petróleo, questionando o Governo sobre o porquê de até agora não ter assinado o contrato.”A 40 quilómetros da costa algarvia existem reservas de gás natural suficientes para cobrir o consumo interno de Portugal durante 15 anos”, estimou António Costa da Silva.

O Algarve, segundo estudos divulgados, tem potencial elevado para gerar gás, com uma capacidade cerca de 20 vezes superior às reservas que foram encontradas nos campos do Golfo de Cádiz, em Espanha. António Costa da Silva recorda que na “bacia do Algarve existem os diferentes componentes para procurar gás natural”.

Existem rochas geradoras de hidrocarbonetos, armadilhas estruturais, rochas reservatório, há migração dos fluidos e já foram perfurados cinco poços no passado, recordou o especialista, acrescentando que valeria a pena perfurar no deep offshore (nas águas profundas) e desenvolver o projeto, porque os riscos associados são “pequenos e os benefícios para o Algarve e país seriam enormes” defende o administrador da Partex.

Recorde-se que a exploração de hidrocarbonetos na costa algarvia, um assunto falado há mais de 15 anos, teve em 2007 desenvolvimentos, quando o Governo firmou em Janeiro desse ano três contratos com um consórcio composto pela empresa australiana Hardman Resources e pelas empresas portuguesas Partex e Galp, concessionando a pesquisa e exploração de hidrocarbonetos ao largo da Costa Vicentina. Já a concessão ao largo da ria Formosa, a que concorreu um consórcio liderado pela empresa espanhola Repsol, também deveria ter sido assinado naquele ano, alegadamente sem concurso público.

O assunto foi levado ao Parlamento pelo líder regional do PSD, Mendes Bota, que afirma não existirem garantias de que a região seja indemnizada, em caso de um acidente ou desastre ambiental. “Há apenas um seguro que retira uma pequena percentagem do orçamento anual das companhias petrolíferas, mas que de maneira nenhuma cobre os prejuízos em caso de catástrofes”, referiu na altura o deputado social-democrata, para quem a região vai ficar numa posição de alto risco e ainda mais vulnerável a acidentes ecológicos com consequências desastrosas, uma vez que “já passam centenas de petroleiros pela costa da região, mas com estas explorações vão passar muitos mais e o risco vai ser agravado”.

Acidente Ecológico ou benefício “entre 1 400 a 1 500 milhões de euros por ano”?

“Mapear os recursos naturais em Portugal” é, pelo seu lado, o concelho que António José Silva deu ao Governo, referindo que a estimativa de gás que se poderia retirar do Algarve pouparia ao país “entre 1 400 a 1 500 milhões de euros por ano”.

Em sua opinião, gerar emprego ou diminuir a dependência energética de Portugal em relação ao exterior são outros dos benefícios que poderiam advir da descoberta de gás natural ao largo do Algarve.

“O país paga uma fatura energética elevada e não podemos esquecer que cerca de 15 por cento tem a ver com importações de gás natural”, sustentou no colóquio em Loulé o administrador da Partex, que pertence à Fundação Calouste Gulbenkian.

“Os espanhóis exploram gás natural desde 1976 no Golfo de Cádiz, mas Portugal, ao nível do seu posicionamento estratégico, tem fragilidades e não conseguimos projetar o país a 20 a 30 a 50 anos”, lamentou, afirmando que o Estado “tem uma missão de soberania para explorar os recursos”, porque Portugal tem das “maiores zonas económicas exclusivas do mundo com recursos mapeados”.

Fonte do post : Expresso 25 de Setembro 2010

Descoberta nova fonte hidrotermal de baixa profundidade ao largo do Faial

Cientistas do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores descobriram há dias uma nova fonte hidrotermal de pequena profundidade, apenas a 500 metros da costa da ilha do Faial.

 A descoberta foi feita ocasionalmente por um mergulhador do DOP, que detectou uma zona de libertação de gases entre 30 e 40 metros de profundidade, a sul da Ponta da Espalamaca, um morro sobranceiro à cidade da Horta, no Faial.

via Descoberta nova fonte hidrotermal de baixa profundidade ao largo do Faial.

Fluxo térmico e tectónica de placas

A Terra apresenta-se como um globo extraordinariamente activo e estratificado, nomeadamente, no que respeita a propriedades como a densidade, a rigidez e a composição dos materiais. Desde a sua origem até à actualidade, o dinamismo da Terra tem sido mantido, sobretudo, graças à existência de fluxos contínuos de energia com origem no Sol e na própria Terra. O calor interno da Terra dissipa-se lenta e continuamente, do interior até à superfície, originando um fluxo térmico que apresenta variações na superfície terrestre, como se evidencia na figura 1A.

O soerguimento e o afundamento da litosfera oceânica na astenosfera determinam a profundidade dos oceanos, que tende a ser maior nos locais mais afastados das dorsais oceânicas. Este facto relaciona-se com variações no fluxo térmico ao longo dos fundos oceânicos, que determinam alterações na densidade dos materiais rochosos constituintes da litosfera oceânica. A variação da temperatura, no interior da Terra, em função da profundidade.

 

Explique o modo como a variação do fluxo térmico, ao longo dos fundos oceânicos, poderá justificar a maior profundidade atingida pelos oceanos nas zonas mais afastadas das dorsais.

Calor e morfologia

A primeira observação, certamente a mais simples de quan­tas foram feitas nos oceanos desde a campanha do Challenger, é a da existência de dorsais e de fossas profundas. Segundo a teoria do sea-floor spreading, as dorsais ficam a dever-se à ascensão de matéria quente, por conseguinte dilatada, ao longo da zona de ascensão de matéria mantélica. Expandindo-se para ambos os lados, em contacto permanente com a água do mar a 4°, o fundo contrai-se ao arrefecer, o que significa que a alti­tude dos fundos decresce à/medida que aumenta a distância para as dorsais. Os cálculos mostram ser excelente a concordância entre o perfil previsto em função da contracção térmica e o per­fil batimétrico medido.

As fossas abissais, algumas das quais, como as das Curilas ou de Porto Rico, atingem 10 000 m a 11 000 m, são, pelo con­trário, os locais em que o fundo oceânico mergulha no manto, criando encurvamentos súbitos e relevos negativos abruptos, impedindo o movimento contínuo que sejam preenchidas por sedimentos.

A segunda observação, bastante mais sofisticada na sua medida e conceito, diz respeito à distribuição ao fluxo de calor interno. À medida que se penetra no interior do Globo, verifica-se um aumento da temperatura. Esta realidade é tão sensível que já na Antiguidade os mineiros que trabalhavam nas pro­fundidades tiveram ocasião de a verificar. Como o calor se pro­paga das regiões quentes para as mais frias, é concebível que o calor se propague do interior para a superfície.

 O fluxo de calor é a quantidade de calor proveniente do sub­solo que passa através da unidade de superfície na unidade de tempo. O seu valor absoluto exprime-se em UF, isto é, em microcalorias por centímetro quadrado e por segundo; o fluxo médio à superfície é de l UF, fluxo dez mil vezes menor do que o que recebemos do Sol no período diurno. O que aqui nos inte­ressa, no entanto, não é o seu valor absoluto, mas as suas variações geográficas: o fluxo é dez vezes superior à média nas dor­sais oceânicas e decresce lentamente sobre os flancos. Na óptica da formação da crusta oceânica na zona dos dorsais, é bastante natural que assim seja. O manto ascende sob as dorsais, tra­zendo à superfície matéria muito quente, que se encontra habi­tualmente a várias dezenas de quilómetros de profundidade. Este material liberta uma grande quantidade de calor, do que resulta a anomalia central, mas, ao derivar para ambos os lados da dorsal, dá-se o seu arrefecimento por contacto com a água do mar e o fluxo de calor decresce. A crusta oceânica contrai-se ao arrefecer e a sua altitude diminui.

Tudo se passa como quando se tira um soufflé do forno. Quando sai, encontra-se inchado, de aspecto majestoso, e liberta bastante calor; supo­nhamos que, por diabrura, se lança abruptamente sobre ele um jacto de água fria, arrefecendo-o bruscamente: o soufflé contrai-se e já não produzirá senão um pouco de calor. Este desaire culinário é a imagem simplificada da variação de nível dos fundos oceânicos quando se afastam da dorsal e arrefecem em contacto com a água do mar.

A variação do fluxo de calor e a morfologia submarina são, pois, duas expressões do mesmo fenómeno de arrefecimento. John Sclater e Jean Francheteau, na altura investigadores da Scripps Institution, foram quem melhor analisou e expôs este fenómeno.

Uma consequência espectacular destas manipulações associa­das ao arrefecimento das placas oceânicas é a ligação existente entre velocidade de expansão e morfologia das dorsais. Se uma dorsal tem um índice de expansão reduzido, como acontece no Atlântico Central, o fenómeno de arrefecimento ocorre quando o material quente percorreu só uma pequena distância desde a sua formação na dorsal, atingindo, assim, perto da dorsal, o perfil de equilíbrio térmico, correspondente à menor altitude.

Por outras palavras, quando se verifica um afastamento da dor­sal, passa-se rapidamente de -1000 m a -4500 m. Estas dor­sais possuem, por conseguinte, um relevo acentuado.

Estes dois diagramas, extraídos do trabalho de J. Sclater e J. Francheteau, representam variações medidas do fluxo médio de calor e da altitude com a distância no centro da dorsal. Todos os pontos acertam com as curvas calculadas a partir da hipótese de que a crusta oceânica arrefece em contacto com a água do mar enquanto se vai afastando da dorsal.

Pelo contrário, quando a dorsal é rápida, como a do Pací­fico Leste, o fenómeno que se produz é inverso. A crusta oceâ­nica permanece quente, portanto inchada, enquanto percorre uma distância importante desde a sua criação na dorsal. Os rele­vos desta dorsais são, pois, mais suaves e de grande extensão. Deste modo, a «zona de influência» da dorsal do Pacífico estende-se por mais de 2000 km de um lado e de outro a partir do centro, ao passo que os relevos da dorsal do Atlântico Norte apenas se fazem sentir numa extensão de 1000 km em torno do vale central.

Fonte :

GAVE – Testes Intermédios

Claude Allègre – A Espuma da Terra. Gradiva.

Migalhas no tempo geológico

Se pudéssemos festejar o aniversário da Terra, à semelhança do que faze­mos com os nossos amigos, teríamos de pôr na mesa um grande bolo com cerca de quatro mil quinhentos e setenta milhões de velas, modo divertido de dizer que ela se formou há cerca de 4,57Ga (giga anos), isto é, 30Ma (milhões de anos) mais tarde do que os mais antigos meteoritos.

 

Como consta das Sagradas Escrituras afirmava-se, entre os hebreus, que a Terra fora gerada em seis dias, há cerca de seis mil anos. Esta crença, manti­da a ferro e fogo pela Igreja, paralisou o avanço do conhecimento científico neste domínio, durante quase dezoito séculos. Falar de milhões de anos na história da Terra e conceber um tempo para trás da criação do Homem foram conquistas árduas e tantas vezes trágicas da Ciência sobre o dogmatismo reli­gioso, conservador e severo, dominante na Europa de então. Para o tempo bíblico, tido como o tempo da Terra e do Homem, os clérigos de então aceitavam aquela cifra e não mais. Numa época marcada pela rigorosa observância aos dogmas impostos pela Fé, não era fácil defender a imensi­dade do tempo geológico. A este propósito, escreveu Claude Allègre: Entre as disciplinas científicas que se confrontaram com as crenças religiosas, a geologia é uma daquelas em que os choques foram mais violentos.

No dia-a-dia, o tempo mede-se em horas, minutos e segundos nos mostradores dos nossos relógios de pulso. Na História, mede-se em anos, séculos e milénios, usando, para tal, pergaminhos e outros documentos com significado cronológico. Na Pré-história faz-se outro tanto com base em objectos vários e fala-se de milhares e, nalguns casos, de milhões de anos.

 A escala do tempo dilata-se ao historiarmos o passado geológico e ainda mais se recuarmos aos começos do Sistema Solar e do Universo, onde os mi­lhares de milhões de anos marcam as etapas percorridas com uma imprecisão que se esfuma nessa “eternidade”. Mil milhões de anos a mais ou a menos nos primórdios da matéria de que somos feitos representam o mesmo grau de imprecisão do milhão de anos a mais ou a menos no tempo dos dinossáurios, do mais ou menos um ano na história do velho Egipto, ou do mais dia-menos dia, mais minuto-menos minuto, no tempo que estamos a viver. No decurso da nossa existência revemos, sem dificuldade, o nosso tempo, o dos avós e até o da História, mas é com esforço que abarcamos ou evocamos a vastidão do tempo geológico, que só encontra paralelo na imensidão das distâncias astronómicas.

Como na História, também a Geologia necessita de documentos e esses temo-los nas rochas, quer sejam os fósseis, quer alguns dos seus minerais con­tendo isótopos radioactivos.

Entre as variáveis susceptíveis de serem correla­cionadas com o tempo, apenas duas – a evolução biológica e a desintegração radioactiva natural – têm lugar de forma irreversível, uma vez que, qualquer destes dois processos se desenvolve apenas num sentido. Porque de uma história se trata, a Geologia tem no tempo um dos seus pilares, sendo aí encaradoa sob duas perspectivas distintas: a de tempo relativo e a de tempo absoluto.

Na perspectiva de tempo relativo procura-se saber se um dado evento ocorreu antes, depois ou em simultâneo com outro, isto é, se lhe foi anterior,  posterior ou contemporâneo. De há muito que as relações geométricas observáveis no terreno, entre os diversos corpos rochosos aflorantes, têm sido utilizadas no estabelecimento da ordenação cronológica dos acontecimento geológicos de que são testemunhos. Uma tal ordenação é particularmente evi­dente nas rochas estratificadas, nas quais os estratos ou camadas se sucedem numa imediata sugestão de sequência no tempo. Tal ordenação é a mesma patenteada numa pilha de papéis na secretária de um burocrata.

Neste entendimento, e graças ao muito trabalho dos paleontólogos, sabemos, por exemplo, que as camadas de rochas sedimentares com fósseis de trilobites são mais antigas (Paleozóico) do que as que conservam ossadas de dinossáurios (Mesozóico) e que estas, por sua vez, são anteriores às que serviram de jazida aos mamutes ou aos australopitecos (Cenozóico), nossos avós.

Na outra perspectiva, a do tempo absoluto, passível de quantificação, o tempo tem o sentido de duração e, assim, refere o intervalo que medeia dois acontecimentos ou o que decorreu entre um deles e o momento presente, isto é, a sua idade. Uma das vias mais frutuosas na medição do tempo geológico nasceu com a descoberta da radioactividade por Henri Becquerel, em 1896, e ganhou corpo com os trabalhos sobre a constituição e funcionamento do núcleo atómico levados a efeito por Marie e Pierre Curie e muitos outros físi­cos.

Tais avanços da ciência, com reflexos na medição do tempo, foram sabi­amente aproveitados por vários investigadores, entre os quais o geólogo inglês Arthur Holmes, que “só não foi prémio Nobel porque a Geologia não figura entre as disciplinas contempladas no respectivo regulamento”.

 Executadas por rotina em muitos laboratórios de todo o mundo, as determi­nações de idade isotópica  de alguns minerais permitiram-nos enquadrar, em ermos de cronologia absoluta, as grandes etapas da história da Terra a da Vida, muitas delas, de há muito definidas em termos de idade relativa.

Sabemos hoje que a Terra se formou há aproximadamente 4 460 Ma, que os dinossáurios não avianos fizeram a sua aparição há cerca de 235 Ma e que desapareceram, de vez, há 65Ma. Sabemos que o granito do Porto tem 560 Ma, que o das Beiras em à volta de 300 e que o de Sintra, apenas 85 Ma. E a lista de rochas e de acon­tecimentos de que conhecemos a idade absoluta é imensa e não pára de crescer.

 

O texto foi adaptado do livro “Como Bola Colorida” de A.M. Galopim de Carvalho 

 

 

Para saber mais : http://sites.google.com/site/geologiaebiologia/biologia-e-geologia-10%C2%BA/a-medida-do-tempo-e-a-idade-da-terra

Fonte : Como Bola Colorida – A.M.Galopim de Carvalho. Âncora Editora

 

Pedras Parideiras

Na região norte de Portugal continental, o granito da serra da Freita enquadra-se no domínio dos granitos de duas micas, tendo uma fácies de grão médio equigranular. Junto à aldeia da Castanheira, situada na mesma serra, encontra-se uma das mais notáveis formações geológicas de Portugal: um outro granito de grão médio, contemporâneo do granito da serra da Freita, envolvido por xistos metamórficos, que presenta numerosos nódulos biotíticos com a forma de discos circulares. O afloramento rochoso da Castanheira, uma pequena janela granítica, como se representa na Figura 1 parece corresponder à parte superior de um maciço granítico cuja cobertura de xisto foi erodida. Este tipo de granito é considerado único em Portugal e raro no mundo. De entre os granitos portugueses, o da Castanheira é o único que apresenta discos circulares biotíticos. Os nódulos achatados, biconvexos, de 1 a 12 cm de diâmetro, possuem um núcleo de quartzo e feldspato, revestido por camadas concêntricas de biotite. Na Figura 2 está representada, esquematicamente, a caracterização mineralógica de um nódulo biotítico. As fortes amplitudes térmicas que se fazem sentir na região, as cunhas de gelo que vão crescendo junto aos nódulos e a erosão do granito nodular da Castanheira contribuem para a separação e posterior expulsão dos nódulos de biotite. Ao soltarem-se, deixam à superfície da rocha-mãe cavidades revestidas de biotite. Na região, chamam a esta rocha «a pedra que pare pedra» e, daí, a famosa designação popular de «Pedras Parideiras» para esta invulgar formação geológica. Texto elaborado com base em Daniela Rocha, Inventariação, Caracterização e Avaliação do Património Geológico do Concelho de Arouca, 2008

Texto e imagem retirados do Exame de Biologia e Geologia, 1ª fase. GAVE