Jornada Humana

O prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina foi atribuído a um único investigador, Svante Pääbo, “pelas suas descobertas sobre os genomas dos hominídeos extintos e a evolução humana”. O anúncio foi feito esta segunda-feira, dia 3 de outubro de 2022, pelas 10h30 (hora de Lisboa), na Assembleia do Nobel do Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia).

Nossos parentes pré-históricos mais próximos dominaram a Eurásia durante grande parte de um período de 200 mil anos.

Nessa época, os seus largos e protuberantes narizes inspecionaram todos os recantos da Europa e ainda mais além – a sul, ao longo do mediterrâneo, desde o estreito de Gibraltar até à Grécia e ao Iraque, a norte até à Rússia, a ocidente chegando à Grã-Bretanha e quase até à Mongólia a oriente.

Segundo cálculos da comunidade científica mesmo no auge da sua ocupação, os homens de Neandertal nunca terão sido mais de 15 mil indivíduos. Ainda assim, conseguiram subsistir, mesmo quando um clima mais frio transformou grande parte do seu território em algo parecido com o Norte da Escandinávia na atualidade. Uma tundra frígida e estéril, com um horizonte ermo interrompido, aqui e ali, por várias árvores desordenadas e apenas com quantidades suficientes de líquenes para garantir o sustento das renas.

Confinados na Península Ibérica, a bolsas na Europa Central e à região costeira do Mediterrâneo por um clima em degradação e encurralados pela expansão para oeste dos seres humanos anatomicamente modernos, à medida que estes chegavam de África ao Médio Oriente e a terras mais distantes. Aproximadamente 15 mil milhões de anos depois, os Neandertais teriam desaparecido para sempre, deixando poucos ossos e muitas perguntas por responder.

Através da sequenciação do DNA, a paleogenética criou uma verdadeira máquina de viajar no tempo, Foto 1, inaugurando uma extraordinária jornada científica. Foi com o mamute-lanudo que esta tecnologia (paleogenómica, a ciência dos genomas antigos) foi desenvolvida e rapidamente, a experiência repetiu-se com vestígios ósseos de neandertais. Esta nova ciência recupera a história evolutiva da nossa espécie e da dos grandes símios, apoiando-se nas variações genéticas presentes nos respetivos genomas (conjunto completo da informação contida no DNA de uma célula, ser vivo ou espécie). O estudo do genoma e a comparação entre genomas de diversos seres vivos constitui a genómica.    

Foto 1 – Uma verdadeira revolução no domínio da ciência está em curso. A história genómica, que nos conta, nesta obra, o investigador francês Ludovic Orlando. Autor da sequenciação do genoma mais antigo conhecido até hoje, foi o primeiro a caracterizar um epigenoma antigo e a reconstruir a história genómica da domesticação do cavalo.    

As escavações no jazigo arqueológico de Atapuerca, em Burgos (Espanha), começaram no fim do ano de 1970. Na década de 80 do século passado, o paleoantropólogo Juan Luis Arsuaga, participou na descoberta de um crânio completo de um Neandertal, Foto 2 . Pouco depois desta verdadeira surpresa, começaram a ser descobertos restos fósseis humanos que iluminaram a história da humanidade. Na obra “Vida a grande história” o autor propõe uma viagem pelo labirinto da árvore da vida.

Foto 2    – Duas grandes jornadas desde a introdução geral aos temas mais importantes sobre a natureza da História da vida e da evolução. Uma segunda jornada é dedicada à exploração daquilo que é a atividade intelectual a que desde o século XIX chamamos ciência e que, antes era conhecida como filosofia natural. Nesta segunda jornada também se explica em que consiste a teoria da evolução pela seleção natural formulada por Charles Darwin.

Um terceiro livro interessante sobre esta …. Reúne um dos maiores paleontólogos (Juan Luis Arsuaga) e um dos mais premiados escritores de língua castelhana (Juan José Millás). Juntaram-se para nos contar como foi começo da vida humana,

Foto 3 – Um excelente texto que junta ciência, divulgação e imaginação com muita ironia, para percebermos de onde viemos, quem somos e para onde vamos. Uma viagem fascinante pela existência humana, em que o humor é uma constante nos diálogos entre os dois autores.

A moderna ciência da paleogenética descobriu que no nosso genoma temos a pegada de outras populações (ou de outras espécies),embora o sinal seja pequeno. Os seres humanos atuais que não são da África subsariana têm uma pequena percentagem de genes neandertais. Os Neandertais tiveram origem na Europa, mas logo se expandiram pelos continentes terrestres. Absorvemos esses genes há uns 60 mil anos ao sairmos de África, onde tiveram origem os seres humanos modernos.

Agora restamos nós, os seres humanos modernos, depois dos neandertais terem desaparecido. Há dados genéticos que fazem pensar que a nossa espécie atravessou, na sua evolução aquilo que se designa por «efeito gargalo de garrafa», ou seja, um momento em que o tamanho da população se reduz drasticamente. Esse estrangulamento ocorreu, segundo o relógio genético, há uns 75 mil anos, por algum motivo ainda por esclarecer. Poderia ter a ver com uma gigantesca erupção vulcânica que modificou o clima, ou uma glaciação. A catástrofe que causa o efeito gargalo é discutível, mas a redução do tamanho da população dos nossos antepassados parece estar firmemente assente. Uma das hipóteses colocada tem por base o facto das unidades sociais do Homo sapiens serem compostas por um número superior de indivíduos, dotados de mais capacidades, poderiam ter conferido aos humanos modernos uma vantagem quando as condições ambientais se tornavam mais duras.   

Fosse qual fosse a causa, descendemos de poucos indivíduos.       

Bibliografia

Arsuaga, J. (2021). Vida a grande história. Editora Circulo Leitores).

Millás, J. & Arsuaga, J.(2022). A vida contada por um Sapiens a um Neandertal. Editorial Presença.   

Orlando, L. (2022). O ADN fóssil. Editora Guerra&Paz.

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