Enterrámos os mortos, mas não cuidamos dos vivos!

Após o sismo de 1 de Novembro de 1755 o rei ficou inconsolável perante a escala da devastação; numa carta endereçada a sua irmã, Bárbara de Bragança, descrevia-se triste­mente a si próprio «como um rei sem reino, num país sem capital».

 Incapacitado pela dor, permanecia na sua tenda, incapaz de agir ou de tornar decisões racionais; mas, em vez de convocar o parlamento e de encarregar os seus membros de assumirem o controlo da situação, preferiu delegar todos os poderes e responsabilidades no seu ambicio­so primeiro-ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal, cuja casa, na Rua Formosa, tinha sido um dos  poucos edifícios da baixa da cidade a escapar incólume à calamidade daquele dia — um facto que o rei, ao que parece, interpretou como outro sinal de Deus. Conta-se que o marquês de Pombal foi o primeiro  a chegar ao acampamento do rei e, quando o monarca lhe perguntou: «Que há a fazer para enfrentar este castigo da justiça divina?», respondeu com uma frase que iria ficar célebre: «Enterrar os mortos Majestade, e cuidar dos vivos

Quer tenha ou não havido esta troca de palavras no seu encontro, a tranquilidade racional de Pombal pe­rante a catástrofe impressionou de tal maneira o indeciso monarca que entregou todos os poderes oficiais ao seu primeiro-ministro, que contava na altura cinquenta e seis anos de idade. E a partir daquele dia o destino da cidade ficou nas mãos do marquês de Pombal.

A sua primeira medida foi convencer o rei a pôr de lado o plano de se transferir para o Brasil e a aceitar a ideia de que não era a altura de quebrar os vínculos com o seu povo; pelo contrário, como insis­tiam Pombal e os seus conselheiros, era fundamental reconstruir Lis­boa e restabelecê-la como capital de Portugal. Uma vez aceite este princípio básico, o imponente Pombal, que tinha mais de dois metros de altura (entre os britânicos, era conhecido como the Lisbon Oak [o carvalho de Lisboa]), instalou-se num coche emprestado pelo Palá­cio Real de Belém, no qual viajou de regresso às ruínas de Lisboa, emanando decreto após decreto para regulamentar os mais ínfimos pormenores da reconstrução da cidade. A sua energia era fenomenal, e numa semana tinha publicado mais de duzentas medidas, a partir do seu quartel-general itinerante, puxado por cavalos, para regulamentar o enterramento dos cadáveres, a remoção dos escombros, a recolha de mantimentos e de equipamentos médicos, a alimentação dos desaloja­dos, a mobilização dos militares, a nomeação de magistrados, a manu­tenção da disciplina, o rigor nas notícias dadas pela imprensa, a estabi­lidade dos preços, o movimento marítimo, e a protecção da costa portuguesa, agora vulnerável, contra a actividade dos piratas norte-africanos. Sozinho, assumiu a responsabilidade por todas as decisões tomadas no rescaldo da catástrofe, e procurou encorajar os seus desa­nimados concidadãos, principalmente através da sua enorme coragem e senso comum. Nas palavras de um entusiástico relato publicado na altura, «ao longo das vinte e quatro horas do dia, o seu único alimento eram caldos que a esposa, abrindo caminho pelas ruas cobertas de ruínas, lhe levava à carruagem onde ele trabalhava para recuperar Lisboa».

Pombal, no entanto, depressa começou a exibir o zelo assustador de alguém que tinha descoberto o objectivo da sua vida e que se pre­parava para o impor aos outros pela força. Lisboa voltaria a erguer-se!

Entre os primeiros a responder ao apelo de Pombal, esteve um fí­sico lisboeta chamado José Alvares da Silva, que prefaciou o seu trata­do, intitulado Investigações sobre as Causas Últimas do Terramoto de Lisboa de 1755, com a observação de que a humanidade tem o dever religioso de investigar as operações da natureza de criação divina.

Traçava então algumas das hipóteses correntes referentes às causas naturais dos ter­ramotos, entre elas a libertação súbita de ar comprimido, a deflagração de fogos subterrâneos, e as operações de forças eléctricas no interior das partes sólidas da terra. Passava depois a debater cada uma delas, e terminava reiterando o pedido inicial de Pombal para. que se conti­nuassem as investigações in loco. Álvares da Silva, porém, tinha dado um primeiro passo significativo e, a poucos meses da catástrofe de Lisboa, a sismologia portuguesa tinha-se tornado num campo de investigação distinto dentro da ciência da terra na Europa, uma situação que teria sido absolutamente impensável antes do terramoto, num país como Portugal dominado pelo clero.

Adaptado de Terra- Acontecimentos que mudaram o mundo. Richard Hamblyn. Bertrand Editora

LISBOA – Século XXI !

“Portugal corre um risco de sismo. Não sabemos quando mas sabemos que vai acontecer”, quem afirma é Carlos Sousa Oliveira, responsável pelo Consórcio Riscos. Em entrevista ao Ciência Hoje, o professor do Instituto Superior Técnico (IST), explica que há pouco mais do que planos de intervenção da Protecção Civil se vier um grande sismo.

“O problema sísmico é complicado porque não temos uma actividade sísmica constante, ela é espalhada no tempo, e levanta-nos problemas em termos de uma boa aceitação. Daí tornar-se um pouco difícil convencer as autoridades que é uma questão que tem de ser tratada com todo o cuidado”, afirma Carlos Sousa Oliveira.

Segundo o especialista, os sismos ocorrem com alguma periodicidade. “Nos Açores ocorrem com mais frequência e aí o problema está mais dominado. No Continente, como o espaçamento maior e a memória é curta, as pessoas esquecem-se desse problema. Creio que este é um dos aspectos que tem feito travar mais o assunto”, refere.

 Há possibilidade de virem a ocorrer sismos em Portugal. Já ocorreram no passado, “conhecemos o de 1755, que é o exemplo mais importante de todos”. Mas ultimamente eles não têm acontecido. “Houve um que as pessoas sentiram no dia 17 de Dezembro do ano passado, mas podem vir a acontecer mais, não conseguimos é prever quando”, afirma Carlos Sousa Oliveira. Este último sismo de Dezembro teve uma magnitude 6, mas “se tivesse de 6,5 já causava alguns problemas”. O professor alerta que “nos próximos 30 ou 40 anos é possível que hajam sismos maiores e que possam causar grandes problemas”.

 Definir a perigosidade

Se ocorresse já um sismo amanhã, hipoteticamente, o país não saberia como agir. “Esse é um dos problemas que nós temos, é que não existe um organismo específico para a questão, existe a Autoridade Nacional de Protecção Civil que trabalha fundamentalmente após o sismo”, declara o cientista. “O que nós precisamos é de trabalhar no antes, nas medidas preventivas. E o melhor é pensarmos que vamos iniciar o mais rápido possível essas acções de prevenção e esperar que não ocorra um sismo agora, que venha mais tarde. É muito importante ter uma atitude pró-activa e não deixar passar o tempo porque piora a situação”, sublinha.

Fonte e entrevista completa:  http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=43884&op=all

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