Migalhas no tempo geológico

Se pudéssemos festejar o aniversário da Terra, à semelhança do que faze­mos com os nossos amigos, teríamos de pôr na mesa um grande bolo com cerca de quatro mil quinhentos e setenta milhões de velas, modo divertido de dizer que ela se formou há cerca de 4,57Ga (giga anos), isto é, 30Ma (milhões de anos) mais tarde do que os mais antigos meteoritos.

 

Como consta das Sagradas Escrituras afirmava-se, entre os hebreus, que a Terra fora gerada em seis dias, há cerca de seis mil anos. Esta crença, manti­da a ferro e fogo pela Igreja, paralisou o avanço do conhecimento científico neste domínio, durante quase dezoito séculos. Falar de milhões de anos na história da Terra e conceber um tempo para trás da criação do Homem foram conquistas árduas e tantas vezes trágicas da Ciência sobre o dogmatismo reli­gioso, conservador e severo, dominante na Europa de então. Para o tempo bíblico, tido como o tempo da Terra e do Homem, os clérigos de então aceitavam aquela cifra e não mais. Numa época marcada pela rigorosa observância aos dogmas impostos pela Fé, não era fácil defender a imensi­dade do tempo geológico. A este propósito, escreveu Claude Allègre: Entre as disciplinas científicas que se confrontaram com as crenças religiosas, a geologia é uma daquelas em que os choques foram mais violentos.

No dia-a-dia, o tempo mede-se em horas, minutos e segundos nos mostradores dos nossos relógios de pulso. Na História, mede-se em anos, séculos e milénios, usando, para tal, pergaminhos e outros documentos com significado cronológico. Na Pré-história faz-se outro tanto com base em objectos vários e fala-se de milhares e, nalguns casos, de milhões de anos.

 A escala do tempo dilata-se ao historiarmos o passado geológico e ainda mais se recuarmos aos começos do Sistema Solar e do Universo, onde os mi­lhares de milhões de anos marcam as etapas percorridas com uma imprecisão que se esfuma nessa “eternidade”. Mil milhões de anos a mais ou a menos nos primórdios da matéria de que somos feitos representam o mesmo grau de imprecisão do milhão de anos a mais ou a menos no tempo dos dinossáurios, do mais ou menos um ano na história do velho Egipto, ou do mais dia-menos dia, mais minuto-menos minuto, no tempo que estamos a viver. No decurso da nossa existência revemos, sem dificuldade, o nosso tempo, o dos avós e até o da História, mas é com esforço que abarcamos ou evocamos a vastidão do tempo geológico, que só encontra paralelo na imensidão das distâncias astronómicas.

Como na História, também a Geologia necessita de documentos e esses temo-los nas rochas, quer sejam os fósseis, quer alguns dos seus minerais con­tendo isótopos radioactivos.

Entre as variáveis susceptíveis de serem correla­cionadas com o tempo, apenas duas – a evolução biológica e a desintegração radioactiva natural – têm lugar de forma irreversível, uma vez que, qualquer destes dois processos se desenvolve apenas num sentido. Porque de uma história se trata, a Geologia tem no tempo um dos seus pilares, sendo aí encaradoa sob duas perspectivas distintas: a de tempo relativo e a de tempo absoluto.

Na perspectiva de tempo relativo procura-se saber se um dado evento ocorreu antes, depois ou em simultâneo com outro, isto é, se lhe foi anterior,  posterior ou contemporâneo. De há muito que as relações geométricas observáveis no terreno, entre os diversos corpos rochosos aflorantes, têm sido utilizadas no estabelecimento da ordenação cronológica dos acontecimento geológicos de que são testemunhos. Uma tal ordenação é particularmente evi­dente nas rochas estratificadas, nas quais os estratos ou camadas se sucedem numa imediata sugestão de sequência no tempo. Tal ordenação é a mesma patenteada numa pilha de papéis na secretária de um burocrata.

Neste entendimento, e graças ao muito trabalho dos paleontólogos, sabemos, por exemplo, que as camadas de rochas sedimentares com fósseis de trilobites são mais antigas (Paleozóico) do que as que conservam ossadas de dinossáurios (Mesozóico) e que estas, por sua vez, são anteriores às que serviram de jazida aos mamutes ou aos australopitecos (Cenozóico), nossos avós.

Na outra perspectiva, a do tempo absoluto, passível de quantificação, o tempo tem o sentido de duração e, assim, refere o intervalo que medeia dois acontecimentos ou o que decorreu entre um deles e o momento presente, isto é, a sua idade. Uma das vias mais frutuosas na medição do tempo geológico nasceu com a descoberta da radioactividade por Henri Becquerel, em 1896, e ganhou corpo com os trabalhos sobre a constituição e funcionamento do núcleo atómico levados a efeito por Marie e Pierre Curie e muitos outros físi­cos.

Tais avanços da ciência, com reflexos na medição do tempo, foram sabi­amente aproveitados por vários investigadores, entre os quais o geólogo inglês Arthur Holmes, que “só não foi prémio Nobel porque a Geologia não figura entre as disciplinas contempladas no respectivo regulamento”.

 Executadas por rotina em muitos laboratórios de todo o mundo, as determi­nações de idade isotópica  de alguns minerais permitiram-nos enquadrar, em ermos de cronologia absoluta, as grandes etapas da história da Terra a da Vida, muitas delas, de há muito definidas em termos de idade relativa.

Sabemos hoje que a Terra se formou há aproximadamente 4 460 Ma, que os dinossáurios não avianos fizeram a sua aparição há cerca de 235 Ma e que desapareceram, de vez, há 65Ma. Sabemos que o granito do Porto tem 560 Ma, que o das Beiras em à volta de 300 e que o de Sintra, apenas 85 Ma. E a lista de rochas e de acon­tecimentos de que conhecemos a idade absoluta é imensa e não pára de crescer.

 

O texto foi adaptado do livro “Como Bola Colorida” de A.M. Galopim de Carvalho 

 

 

Para saber mais : http://sites.google.com/site/geologiaebiologia/biologia-e-geologia-10%C2%BA/a-medida-do-tempo-e-a-idade-da-terra

Fonte : Como Bola Colorida – A.M.Galopim de Carvalho. Âncora Editora

 

2 respostas a Migalhas no tempo geológico

  1. Fatima Neves diz:

    Óptima explicação para os que estudam Geologia e, também, para os que pouco sabem!
    Parabéns1 Continua…

  2. Isabel diz:

    Óptimo!
    Bom texto para trabalhar com os alunos. Obrigada.

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