A idade da Terra

Julho 29, 2010

A descoberta da radioactividade por Henri Becquerel (1852-1908) em 1896 – a propriedade de determinados elementos, como o urânio, o rádio e o poló­nio, de emitirem raios e mudarem o seu número atómico -, revolucionou tudo.

Os elementos radioactivos podem desintegrar-se noutro elemento através da acção da emissão de raios. Na desintegração radioactiva, o elemento pai, por exemplo o urâ­nio, decai durante um certo período para um outro elemento, chamado filho, como o tório.

A descoberta da radioactividade causou uma enorme excita­ção em todo o mundo da Física e, apenas quatro anos mais tarde, Ernest Rutherford (1871-1937) e Frederick Soddy (1877-1956) provaram que a desintegração radioactiva é exponencial –ou seja, a quantidade de matéria radioactiva reduz-se a metade em certos prazos temporais. Por outras palavras, 1000 átomos de urânio reduzem-se a 500 num certo período, e esses 500 caem para 250 num período igual, passando depois a 125 e daí por diante. Três anos volvidos, e na presença de um lorde Kelvin envelhecido e algo excêntrico, Ernest Rutherford sugeriu que a desintegração radioactiva poderia fornecer um relógio geológico.

Ele argumentava que, se os cientistas mediam o tempo que leva­va à quantidade do elemento radioactivo pai a decair para meta­de e se transformar no elemento filho – uma janela temporal desde então chamada meia-vida -, então a medição das propor­ções dos elementos pai e filho numa amostra de rocha adequada poderia fornecer uma estimativa da sua idade.

A tese de Rutherford foi levada à prática com uma rapidez espantosa. O jovem geólogo britânico Arthur Holmes (1890-1965), de apenas 21 anos na altura, teve um desempenho vir­tuoso ao publicar a primeira estimativa de datação das rochas em 1911: as suas estimativas compreendiam um intervalo que ia dos 340 milhões de anos (uma rocha do período Carbonífe­ro) aos 1640 milhões de anos (uma rocha do Pré-Câmbrico). Estes números não distam significativamente das estimativas da idade moderna.

Repare-se que os primeiros nove déci­mos da história da Terra são designados por Pré-Câmbrico, por precederem o período Câmbrico: trata-se de um termo negativo e redutor para designar um tão vasto intervalo cronológico da história da Terra, mas agora que o termo está estabelecido não pode ser facilmente alterado.

Após as primeiras e muito imperfeitas estimativas terem sido feitas, Holmes e muitos outros talharam arduamente no melhoramento da sua compreensão das medições da idade, e a Química e a Física foram alvo de muitas revisões, pelo que, em 1927, Holmes foi capaz de apresentar um sumário bastante fiá­vel das datas-chave para a história da Terra. Holmes sugeriu que a idade da Terra se encontraria no intervalo entre 1600 e 3000 milhões de anos. No mesmo ano, Rutherford avançou com 3400 milhões de anos e, na década de 1950, a idade da Terra foi finalmente estimada entre 4500 e 4600 milhões de anos, o número ainda hoje aceite. Era, e ainda é, difícil de datar com exactidão a origem da Terra porque presumivelmente as rochas se encontravam fundidas, não havendo consequentemente cristais solidificados que possam ser datados.

Adaptado de Breve Históra da Vida. Michael J. Benton. Texto

Nota

Idade da Terra = 4.5 Ga (giga anos), por vezes aparece 4500 Ma
Ga: Giga-anos (1 000 000 000 anos)
Ma: Milhões de anos (1 000 000 anos)
1 Ga = 1.000 Ma


Descoberta nova fonte hidrotermal de baixa profundidade ao largo do Faial

Julho 24, 2010

Cientistas do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores descobriram há dias uma nova fonte hidrotermal de pequena profundidade, apenas a 500 metros da costa da ilha do Faial.

 A descoberta foi feita ocasionalmente por um mergulhador do DOP, que detectou uma zona de libertação de gases entre 30 e 40 metros de profundidade, a sul da Ponta da Espalamaca, um morro sobranceiro à cidade da Horta, no Faial.

via Descoberta nova fonte hidrotermal de baixa profundidade ao largo do Faial.


Gnaisse ocelado

Julho 18, 2010

As rochas gnáissicas são foliadas e podem apresentar um bandado grosseiro (segregação metamórfica) onde alternam bandas de côr clara e escura, que reflectem composições mineralógicas diferentes. Podem formarse a partir de rochas sedimentares (paragnaisses) ou de rochas ígneas (ortognaisses) por metamorfismo de grau superior ao da fácies dos xistos verdes. A composição mineralógica dos gnaisses depende da composição do protólito; no entanto, os minerais mais comuns dos gnaisses são o quartzo e o feldspato. Dependendo dos minerais acessórios, o gnaisse pode ser denominado anfibólico, granatífero, biotítico, albítico, etc. Quando o gnaisse apresenta grandes porfiroclastos (tipicamente feldspato potássico, equivalente dos fenocristais nas rochas ígneas) no seio de uma matriz mais fina denomina-se gnaisse ocelado (equivalente da textura porfiróide de alguns granitos, do qual se pensa poder derivar).

Gnaisse ocelado – Universidade do Minho

Um granito deformado a quente por cisalhamento adquire uma foliação muito penetrativa, pelo que vulgarmente se denomina de ortognaisse, embora o grau metamórfico possa ser tão baixo como o da fácies dos xistos verdes (na presença de fluidos).


Rapakivi

Julho 18, 2010

Rapakivi – (do finlandês significando rocha friável, rocha podre). Esta palavra foi originalmente utilizada para designar um tipo de granito da Finlândia que se alterava facilmente produzindo um amontoado de saprolito grosseiro. Mais tarde estudos petrológicos realizados por Sederholm (1891) mostraram que esta facilidade para se alterar estava associada a um tipo particular de textura na qual feldspatos potássicos ovóides (B) eram circundados por plagioclases sódicas (A).

Fotografia de um granito com textura Rapakivi – Universidade do Minho

Actualmente alguns autores ampliaram o uso do termo rapakivi para toda textura onde um feldspato potássico é recoberto por uma fase mais sódica, mesmo que este núcleo não apresente forma ovóide, sendo que o termo rapakivi tanto é utilizado para se refirir à textura anteriormente citada como para denominar o granito que a apresenta, isto é, granito rapakivi (aquele com textura rapakivi). Contrariamente, temos textura anti-rapakivi quando um feldspato com núcleo sódico é evolvido pro K-feldspato (feldspato potássico).

Fonte : http://www.dicionario.pro.br/dicionario/index.php/Rapakivi


Enterrámos os mortos, mas não cuidamos dos vivos!

Julho 9, 2010

Após o sismo de 1 de Novembro de 1755 o rei ficou inconsolável perante a escala da devastação; numa carta endereçada a sua irmã, Bárbara de Bragança, descrevia-se triste­mente a si próprio «como um rei sem reino, num país sem capital».

 Incapacitado pela dor, permanecia na sua tenda, incapaz de agir ou de tornar decisões racionais; mas, em vez de convocar o parlamento e de encarregar os seus membros de assumirem o controlo da situação, preferiu delegar todos os poderes e responsabilidades no seu ambicio­so primeiro-ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal, cuja casa, na Rua Formosa, tinha sido um dos  poucos edifícios da baixa da cidade a escapar incólume à calamidade daquele dia — um facto que o rei, ao que parece, interpretou como outro sinal de Deus. Conta-se que o marquês de Pombal foi o primeiro  a chegar ao acampamento do rei e, quando o monarca lhe perguntou: «Que há a fazer para enfrentar este castigo da justiça divina?», respondeu com uma frase que iria ficar célebre: «Enterrar os mortos Majestade, e cuidar dos vivos

Quer tenha ou não havido esta troca de palavras no seu encontro, a tranquilidade racional de Pombal pe­rante a catástrofe impressionou de tal maneira o indeciso monarca que entregou todos os poderes oficiais ao seu primeiro-ministro, que contava na altura cinquenta e seis anos de idade. E a partir daquele dia o destino da cidade ficou nas mãos do marquês de Pombal.

A sua primeira medida foi convencer o rei a pôr de lado o plano de se transferir para o Brasil e a aceitar a ideia de que não era a altura de quebrar os vínculos com o seu povo; pelo contrário, como insis­tiam Pombal e os seus conselheiros, era fundamental reconstruir Lis­boa e restabelecê-la como capital de Portugal. Uma vez aceite este princípio básico, o imponente Pombal, que tinha mais de dois metros de altura (entre os britânicos, era conhecido como the Lisbon Oak [o carvalho de Lisboa]), instalou-se num coche emprestado pelo Palá­cio Real de Belém, no qual viajou de regresso às ruínas de Lisboa, emanando decreto após decreto para regulamentar os mais ínfimos pormenores da reconstrução da cidade. A sua energia era fenomenal, e numa semana tinha publicado mais de duzentas medidas, a partir do seu quartel-general itinerante, puxado por cavalos, para regulamentar o enterramento dos cadáveres, a remoção dos escombros, a recolha de mantimentos e de equipamentos médicos, a alimentação dos desaloja­dos, a mobilização dos militares, a nomeação de magistrados, a manu­tenção da disciplina, o rigor nas notícias dadas pela imprensa, a estabi­lidade dos preços, o movimento marítimo, e a protecção da costa portuguesa, agora vulnerável, contra a actividade dos piratas norte-africanos. Sozinho, assumiu a responsabilidade por todas as decisões tomadas no rescaldo da catástrofe, e procurou encorajar os seus desa­nimados concidadãos, principalmente através da sua enorme coragem e senso comum. Nas palavras de um entusiástico relato publicado na altura, «ao longo das vinte e quatro horas do dia, o seu único alimento eram caldos que a esposa, abrindo caminho pelas ruas cobertas de ruínas, lhe levava à carruagem onde ele trabalhava para recuperar Lisboa».

Pombal, no entanto, depressa começou a exibir o zelo assustador de alguém que tinha descoberto o objectivo da sua vida e que se pre­parava para o impor aos outros pela força. Lisboa voltaria a erguer-se!

Entre os primeiros a responder ao apelo de Pombal, esteve um fí­sico lisboeta chamado José Alvares da Silva, que prefaciou o seu trata­do, intitulado Investigações sobre as Causas Últimas do Terramoto de Lisboa de 1755, com a observação de que a humanidade tem o dever religioso de investigar as operações da natureza de criação divina.

Traçava então algumas das hipóteses correntes referentes às causas naturais dos ter­ramotos, entre elas a libertação súbita de ar comprimido, a deflagração de fogos subterrâneos, e as operações de forças eléctricas no interior das partes sólidas da terra. Passava depois a debater cada uma delas, e terminava reiterando o pedido inicial de Pombal para. que se conti­nuassem as investigações in loco. Álvares da Silva, porém, tinha dado um primeiro passo significativo e, a poucos meses da catástrofe de Lisboa, a sismologia portuguesa tinha-se tornado num campo de investigação distinto dentro da ciência da terra na Europa, uma situação que teria sido absolutamente impensável antes do terramoto, num país como Portugal dominado pelo clero.

Adaptado de Terra- Acontecimentos que mudaram o mundo. Richard Hamblyn. Bertrand Editora

LISBOA – Século XXI !

“Portugal corre um risco de sismo. Não sabemos quando mas sabemos que vai acontecer”, quem afirma é Carlos Sousa Oliveira, responsável pelo Consórcio Riscos. Em entrevista ao Ciência Hoje, o professor do Instituto Superior Técnico (IST), explica que há pouco mais do que planos de intervenção da Protecção Civil se vier um grande sismo.

“O problema sísmico é complicado porque não temos uma actividade sísmica constante, ela é espalhada no tempo, e levanta-nos problemas em termos de uma boa aceitação. Daí tornar-se um pouco difícil convencer as autoridades que é uma questão que tem de ser tratada com todo o cuidado”, afirma Carlos Sousa Oliveira.

Segundo o especialista, os sismos ocorrem com alguma periodicidade. “Nos Açores ocorrem com mais frequência e aí o problema está mais dominado. No Continente, como o espaçamento maior e a memória é curta, as pessoas esquecem-se desse problema. Creio que este é um dos aspectos que tem feito travar mais o assunto”, refere.

 Há possibilidade de virem a ocorrer sismos em Portugal. Já ocorreram no passado, “conhecemos o de 1755, que é o exemplo mais importante de todos”. Mas ultimamente eles não têm acontecido. “Houve um que as pessoas sentiram no dia 17 de Dezembro do ano passado, mas podem vir a acontecer mais, não conseguimos é prever quando”, afirma Carlos Sousa Oliveira. Este último sismo de Dezembro teve uma magnitude 6, mas “se tivesse de 6,5 já causava alguns problemas”. O professor alerta que “nos próximos 30 ou 40 anos é possível que hajam sismos maiores e que possam causar grandes problemas”.

 Definir a perigosidade

Se ocorresse já um sismo amanhã, hipoteticamente, o país não saberia como agir. “Esse é um dos problemas que nós temos, é que não existe um organismo específico para a questão, existe a Autoridade Nacional de Protecção Civil que trabalha fundamentalmente após o sismo”, declara o cientista. “O que nós precisamos é de trabalhar no antes, nas medidas preventivas. E o melhor é pensarmos que vamos iniciar o mais rápido possível essas acções de prevenção e esperar que não ocorra um sismo agora, que venha mais tarde. É muito importante ter uma atitude pró-activa e não deixar passar o tempo porque piora a situação”, sublinha.

Fonte e entrevista completa:  http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=43884&op=all


Fluxo térmico e tectónica de placas

Julho 8, 2010

A Terra apresenta-se como um globo extraordinariamente activo e estratificado, nomeadamente, no que respeita a propriedades como a densidade, a rigidez e a composição dos materiais. Desde a sua origem até à actualidade, o dinamismo da Terra tem sido mantido, sobretudo, graças à existência de fluxos contínuos de energia com origem no Sol e na própria Terra. O calor interno da Terra dissipa-se lenta e continuamente, do interior até à superfície, originando um fluxo térmico que apresenta variações na superfície terrestre, como se evidencia na figura 1A.

O soerguimento e o afundamento da litosfera oceânica na astenosfera determinam a profundidade dos oceanos, que tende a ser maior nos locais mais afastados das dorsais oceânicas. Este facto relaciona-se com variações no fluxo térmico ao longo dos fundos oceânicos, que determinam alterações na densidade dos materiais rochosos constituintes da litosfera oceânica. A variação da temperatura, no interior da Terra, em função da profundidade.

 

Explique o modo como a variação do fluxo térmico, ao longo dos fundos oceânicos, poderá justificar a maior profundidade atingida pelos oceanos nas zonas mais afastadas das dorsais.

Calor e morfologia

A primeira observação, certamente a mais simples de quan­tas foram feitas nos oceanos desde a campanha do Challenger, é a da existência de dorsais e de fossas profundas. Segundo a teoria do sea-floor spreading, as dorsais ficam a dever-se à ascensão de matéria quente, por conseguinte dilatada, ao longo da zona de ascensão de matéria mantélica. Expandindo-se para ambos os lados, em contacto permanente com a água do mar a 4°, o fundo contrai-se ao arrefecer, o que significa que a alti­tude dos fundos decresce à/medida que aumenta a distância para as dorsais. Os cálculos mostram ser excelente a concordância entre o perfil previsto em função da contracção térmica e o per­fil batimétrico medido.

As fossas abissais, algumas das quais, como as das Curilas ou de Porto Rico, atingem 10 000 m a 11 000 m, são, pelo con­trário, os locais em que o fundo oceânico mergulha no manto, criando encurvamentos súbitos e relevos negativos abruptos, impedindo o movimento contínuo que sejam preenchidas por sedimentos.

A segunda observação, bastante mais sofisticada na sua medida e conceito, diz respeito à distribuição ao fluxo de calor interno. À medida que se penetra no interior do Globo, verifica-se um aumento da temperatura. Esta realidade é tão sensível que já na Antiguidade os mineiros que trabalhavam nas pro­fundidades tiveram ocasião de a verificar. Como o calor se pro­paga das regiões quentes para as mais frias, é concebível que o calor se propague do interior para a superfície.

 O fluxo de calor é a quantidade de calor proveniente do sub­solo que passa através da unidade de superfície na unidade de tempo. O seu valor absoluto exprime-se em UF, isto é, em microcalorias por centímetro quadrado e por segundo; o fluxo médio à superfície é de l UF, fluxo dez mil vezes menor do que o que recebemos do Sol no período diurno. O que aqui nos inte­ressa, no entanto, não é o seu valor absoluto, mas as suas variações geográficas: o fluxo é dez vezes superior à média nas dor­sais oceânicas e decresce lentamente sobre os flancos. Na óptica da formação da crusta oceânica na zona dos dorsais, é bastante natural que assim seja. O manto ascende sob as dorsais, tra­zendo à superfície matéria muito quente, que se encontra habi­tualmente a várias dezenas de quilómetros de profundidade. Este material liberta uma grande quantidade de calor, do que resulta a anomalia central, mas, ao derivar para ambos os lados da dorsal, dá-se o seu arrefecimento por contacto com a água do mar e o fluxo de calor decresce. A crusta oceânica contrai-se ao arrefecer e a sua altitude diminui.

Tudo se passa como quando se tira um soufflé do forno. Quando sai, encontra-se inchado, de aspecto majestoso, e liberta bastante calor; supo­nhamos que, por diabrura, se lança abruptamente sobre ele um jacto de água fria, arrefecendo-o bruscamente: o soufflé contrai-se e já não produzirá senão um pouco de calor. Este desaire culinário é a imagem simplificada da variação de nível dos fundos oceânicos quando se afastam da dorsal e arrefecem em contacto com a água do mar.

A variação do fluxo de calor e a morfologia submarina são, pois, duas expressões do mesmo fenómeno de arrefecimento. John Sclater e Jean Francheteau, na altura investigadores da Scripps Institution, foram quem melhor analisou e expôs este fenómeno.

Uma consequência espectacular destas manipulações associa­das ao arrefecimento das placas oceânicas é a ligação existente entre velocidade de expansão e morfologia das dorsais. Se uma dorsal tem um índice de expansão reduzido, como acontece no Atlântico Central, o fenómeno de arrefecimento ocorre quando o material quente percorreu só uma pequena distância desde a sua formação na dorsal, atingindo, assim, perto da dorsal, o perfil de equilíbrio térmico, correspondente à menor altitude.

Por outras palavras, quando se verifica um afastamento da dor­sal, passa-se rapidamente de -1000 m a -4500 m. Estas dor­sais possuem, por conseguinte, um relevo acentuado.

Estes dois diagramas, extraídos do trabalho de J. Sclater e J. Francheteau, representam variações medidas do fluxo médio de calor e da altitude com a distância no centro da dorsal. Todos os pontos acertam com as curvas calculadas a partir da hipótese de que a crusta oceânica arrefece em contacto com a água do mar enquanto se vai afastando da dorsal.

Pelo contrário, quando a dorsal é rápida, como a do Pací­fico Leste, o fenómeno que se produz é inverso. A crusta oceâ­nica permanece quente, portanto inchada, enquanto percorre uma distância importante desde a sua criação na dorsal. Os rele­vos desta dorsais são, pois, mais suaves e de grande extensão. Deste modo, a «zona de influência» da dorsal do Pacífico estende-se por mais de 2000 km de um lado e de outro a partir do centro, ao passo que os relevos da dorsal do Atlântico Norte apenas se fazem sentir numa extensão de 1000 km em torno do vale central.

Fonte :

GAVE – Testes Intermédios

Claude Allègre – A Espuma da Terra. Gradiva.


Migalhas no tempo geológico

Julho 7, 2010

Se pudéssemos festejar o aniversário da Terra, à semelhança do que faze­mos com os nossos amigos, teríamos de pôr na mesa um grande bolo com cerca de quatro mil quinhentos e setenta milhões de velas, modo divertido de dizer que ela se formou há cerca de 4,57Ga (giga anos), isto é, 30Ma (milhões de anos) mais tarde do que os mais antigos meteoritos.

 

Como consta das Sagradas Escrituras afirmava-se, entre os hebreus, que a Terra fora gerada em seis dias, há cerca de seis mil anos. Esta crença, manti­da a ferro e fogo pela Igreja, paralisou o avanço do conhecimento científico neste domínio, durante quase dezoito séculos. Falar de milhões de anos na história da Terra e conceber um tempo para trás da criação do Homem foram conquistas árduas e tantas vezes trágicas da Ciência sobre o dogmatismo reli­gioso, conservador e severo, dominante na Europa de então. Para o tempo bíblico, tido como o tempo da Terra e do Homem, os clérigos de então aceitavam aquela cifra e não mais. Numa época marcada pela rigorosa observância aos dogmas impostos pela Fé, não era fácil defender a imensi­dade do tempo geológico. A este propósito, escreveu Claude Allègre: Entre as disciplinas científicas que se confrontaram com as crenças religiosas, a geologia é uma daquelas em que os choques foram mais violentos.

No dia-a-dia, o tempo mede-se em horas, minutos e segundos nos mostradores dos nossos relógios de pulso. Na História, mede-se em anos, séculos e milénios, usando, para tal, pergaminhos e outros documentos com significado cronológico. Na Pré-história faz-se outro tanto com base em objectos vários e fala-se de milhares e, nalguns casos, de milhões de anos.

 A escala do tempo dilata-se ao historiarmos o passado geológico e ainda mais se recuarmos aos começos do Sistema Solar e do Universo, onde os mi­lhares de milhões de anos marcam as etapas percorridas com uma imprecisão que se esfuma nessa “eternidade”. Mil milhões de anos a mais ou a menos nos primórdios da matéria de que somos feitos representam o mesmo grau de imprecisão do milhão de anos a mais ou a menos no tempo dos dinossáurios, do mais ou menos um ano na história do velho Egipto, ou do mais dia-menos dia, mais minuto-menos minuto, no tempo que estamos a viver. No decurso da nossa existência revemos, sem dificuldade, o nosso tempo, o dos avós e até o da História, mas é com esforço que abarcamos ou evocamos a vastidão do tempo geológico, que só encontra paralelo na imensidão das distâncias astronómicas.

Como na História, também a Geologia necessita de documentos e esses temo-los nas rochas, quer sejam os fósseis, quer alguns dos seus minerais con­tendo isótopos radioactivos.

Entre as variáveis susceptíveis de serem correla­cionadas com o tempo, apenas duas – a evolução biológica e a desintegração radioactiva natural – têm lugar de forma irreversível, uma vez que, qualquer destes dois processos se desenvolve apenas num sentido. Porque de uma história se trata, a Geologia tem no tempo um dos seus pilares, sendo aí encaradoa sob duas perspectivas distintas: a de tempo relativo e a de tempo absoluto.

Na perspectiva de tempo relativo procura-se saber se um dado evento ocorreu antes, depois ou em simultâneo com outro, isto é, se lhe foi anterior,  posterior ou contemporâneo. De há muito que as relações geométricas observáveis no terreno, entre os diversos corpos rochosos aflorantes, têm sido utilizadas no estabelecimento da ordenação cronológica dos acontecimento geológicos de que são testemunhos. Uma tal ordenação é particularmente evi­dente nas rochas estratificadas, nas quais os estratos ou camadas se sucedem numa imediata sugestão de sequência no tempo. Tal ordenação é a mesma patenteada numa pilha de papéis na secretária de um burocrata.

Neste entendimento, e graças ao muito trabalho dos paleontólogos, sabemos, por exemplo, que as camadas de rochas sedimentares com fósseis de trilobites são mais antigas (Paleozóico) do que as que conservam ossadas de dinossáurios (Mesozóico) e que estas, por sua vez, são anteriores às que serviram de jazida aos mamutes ou aos australopitecos (Cenozóico), nossos avós.

Na outra perspectiva, a do tempo absoluto, passível de quantificação, o tempo tem o sentido de duração e, assim, refere o intervalo que medeia dois acontecimentos ou o que decorreu entre um deles e o momento presente, isto é, a sua idade. Uma das vias mais frutuosas na medição do tempo geológico nasceu com a descoberta da radioactividade por Henri Becquerel, em 1896, e ganhou corpo com os trabalhos sobre a constituição e funcionamento do núcleo atómico levados a efeito por Marie e Pierre Curie e muitos outros físi­cos.

Tais avanços da ciência, com reflexos na medição do tempo, foram sabi­amente aproveitados por vários investigadores, entre os quais o geólogo inglês Arthur Holmes, que “só não foi prémio Nobel porque a Geologia não figura entre as disciplinas contempladas no respectivo regulamento”.

 Executadas por rotina em muitos laboratórios de todo o mundo, as determi­nações de idade isotópica  de alguns minerais permitiram-nos enquadrar, em ermos de cronologia absoluta, as grandes etapas da história da Terra a da Vida, muitas delas, de há muito definidas em termos de idade relativa.

Sabemos hoje que a Terra se formou há aproximadamente 4 460 Ma, que os dinossáurios não avianos fizeram a sua aparição há cerca de 235 Ma e que desapareceram, de vez, há 65Ma. Sabemos que o granito do Porto tem 560 Ma, que o das Beiras em à volta de 300 e que o de Sintra, apenas 85 Ma. E a lista de rochas e de acon­tecimentos de que conhecemos a idade absoluta é imensa e não pára de crescer.

 

O texto foi adaptado do livro “Como Bola Colorida” de A.M. Galopim de Carvalho 

 

 

Para saber mais : http://sites.google.com/site/geologiaebiologia/biologia-e-geologia-10%C2%BA/a-medida-do-tempo-e-a-idade-da-terra

Fonte : Como Bola Colorida – A.M.Galopim de Carvalho. Âncora Editora