Bacia Cenozóica do Tejo e Sado (Parte 2)

A primeira parte deste percurso no Miocénico de Lisboa pode ser consultado aqui.

No Miocénico Inferior, Lisboa localizava-se no litoral, junto a um mar quente e pouco profundo onde cresciam corais e colónias de briozoários. Em terra existiam pântanos com águas estagnadas, pobres em oxigénio, o que inibia os processos de decomposição biológica, favorecendo  conservação de matéria orgânica.

À beira rio (há 24 milhões de anos – Rua Virgílio Correia)

No Miocénico Inferior, Lisboa localizava-se no litoral, junto a um mar quente e pouco profundo onde cresciam corais e colónias de briozoários.

Em terra, existiam pântanos com águas estagnadas onde a matéria orgânica era conservada. Com o recuo da linha de costa, provocado pela descida do nível do mar, instalou-se um clima mais continental, com influência fluvial. Estes rios depositavam arenitos, ricos em micas provenientes das regiões montanhosas graníticas a Nordeste, Diaporama 1.

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Diaporama 1Areolas da Estefânia. As Areolas da Estefânia são constituídas por areias finas, siltosas, micáceas (areolas), de cores vivas, argilas silto-arenosas e arenitos mais ou menos consolidadas. Há níveis ricos em ostras. O termo “areola” é usado na geologia portuguesa para referir um arenito fino, argilo-micáceo, amarelado e pouco coeso, do Miocénico da região de Lisboa.

Há 17 milhões de anos o mar recuou (Quinta do Lambert)

No Miocénico Inferior existia neste afloramento um ambiente marinho, pouco profundo, ideal para a formação de calcários, ricos em fósseis de moluscos, algas e corais.

Com a descida do nível do mar estes terrenos ficaram emersos e percorridos por rios, ladeados de praias fluviais e planícies aluviais onde pastavam rinocerontes (Gaindatherium) e parentes próximos dos atuais elefantes (Prodeinotherium). Além destes mamíferos, existem nestas areis fósseis de répteis e de peixes de água doce, salobra e marinha, o que denuncia a proximidade da linha de costa, Diaporama 2.

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Diaporama 2 – As areias desta praia fluvial corresponde à fase regressiva da sequência deposicional. É representada por areias amarelas fluviais, com seixos rolados, e argilas arenosas com vegetais e ostras. Sobre estes níveis podem observar-se areias, em parte eólicas, associadas a finos leitos de argila, podendo corresponder a dunas litorais e ambientes deltaicos.

Do Rio ao mar (Há 16 milhões de anos)

Este afloramento da Rua Capitão Leitão, datado do Miocénico Médio apresenta na base um registo de ambiente fluvia com praias e campos de dunas, onde pastavam rinocerontes primitivos.

Esta unidade é constituída por areias feldspáticas e fluviais incoerentes ou fracamente cimentadas, às vezes grosseiras e compactas, com estratificações entrecruzadas e intercalações argilo-margosas. Estas areias contêm importante fauna de vertebrados, restos de vegetais, conchas de moluscos, etc.. No entanto são os ostreídeos (Ostrea crassíssima) em abundância, que caracterizam esta unidade, chegando a formar níveis lumachélicos, de grandes dimensões, que podem atingir os 50 cm, Diaporama 3.

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Diaporama 3 –  Neste afloramento é possível observar estratos intensamente bioturbados. A bioturbação (slide 6  e 7) corresponde ao conjunto de modificações no arranjo estrutural de um sedimento devidas à atividade de seres vivos, com destaque paraos vermes e crustáceos. As lumachelas que ocorrem neste afloramento correspondem a calcário bioacumulado essencialmente formado por ostras.

Com a subida do nivel do mar, a linha de costa aproximou-se, instalando-se aqui um estuário. Neste estuário, sobre a areia onde vermes e crustáceos escavavam galerias formaram-se grandes bancos de ostras.

A Bacia do Tejo teve origem na reativação de fraturas variscas, na dependência das quais se formaram fossas com orientação dominante NE-SW. Inicialmente preenchidas por sedimentos continentais no Paleogénico, sofreram interdigitação sucessiva de sedimentos continentais e marinhos no Neogénico. No Miocénico registaram-se várias transgressões e regressões.  O Atlântico invadiu a bacia no início do Miocénico. A partir de então, a sedimentação na região de Lisboa e da Península de Setúbal ocorreu na interface oceano-continente, com oscilações da linha de costa dependentes das variações do nível do mar e dos efeitos da tectónica.

O enchimento e evolução da Bacia do Baixo Tejo foi um processo complexo e os afloramentos/geomonumentos aqui apresentados são apenas pequenas imagem desta evolução durante o Cenozoico.

Referências:

http://www.cm-lisboa.pt/viver/ambiente/geomonumentos

http://metododirecto.pt/CNG2010/index.php/vol/article/download/234/376

https://run.unl.pt/bitstream/10362/4724/1/CT_14_32.pdf

https://www.researchgate.net/publication/274138668_Os_Perissodactilos_e_Artiodactilos_Fosseis_da_Bacia_do_Baixo_Tejo_Portugal

 

 

 

 

 

 

 

Bacia cenozóica do Tejo e Sado

Existe um percurso de Geomonumentos onde é possível compreender a evolução geológica ocorrida no Cenozoico nesta bacia na região de Lisboa. Nesta primeiro “post”  é feita uma introdução da Bacia Cenozóica do Baixo Tejo e Sado na cidade de Lisboa. Dois afloramentos marcam o início do registo da História desta bacia : a Quinta da Granja e o afloramento da Rua Sampaio Bruno.

Do ponto de vista geológico, a cidade de Lisboa localiza-se na Orla Meso-Cenozóica ocidental, nas bacias denominadas Bacia Lusitaniana e Bacia Cenozóica do Baixo Tejo e Sado, Figura 1.

Mapa

Figura 1 – Carta Geológica do Concelho de Lisboa. Enquadramento geológico da Bacia do Baixo Tejo e Sado. Esta bacia sofreu subsidência ao longo de todo o Cenozoico, controlada essencialmente por movimentos de importantes acidentes tectónicos. A subsidência foi compensada pelo preenchimento com materiais do Paleogénico ao Quaternário, que de uma forma geral se apresentam um pouco deformados, subhorizontais, ou afetados por dobramentos com grande raio de curvatura, ou balançamentos suaves. Destes materiais fazem parte a Formação de Benfica (Paleogénico) constituída por depósitos continentais detríticos, a Série Miocénica e os depósitos do Quaternário.

O conjunto do Complexo Carbonatado Cenomaniano e do CVL foram depositados em ambientes de transgressão e regressão, devido às oscilações do nível do mar durante o Mesozoico. Na área da cidade de Lisboa, destes sedimentos estão apenas representados os materiais do Cenomaniano e do Neocretácico.

Os restantes sedimentos foram depositados na Bacia Cenozóica do Baixo Tejo e Sado, que se encontra orientada segundo a direção NE-SW e cuja sua morfologia corresponde a uma depressão tectónica complexa que começou a desenvolver-se no soco varisco e em formações mesozoicas do bordo ocidental da Fossa Lusitaniana, durante o Paleogénico (Eocénico-Oligocénico) evoluindo de forma coesa, como um todo, ao longo do Terciário, onde está preservado um enchimento sedimentar Cenozóico predominantemente detrítico de origem continental.

Série Miocénica

A Série Miocénica, que assenta na maioria dos casos, sobre a Formação de Benfica, mas também sobre o CVL, corresponde no seu conjunto, à sedimentação ativa continua, acompanhada por constante subsidência, ocorrida na zona vestibular do Tejo, e atinge no total cerca de 300 m de espessura. Esta é constituída por uma alternância de areias, areolas, argilas e calcários, em porções variáveis, contendo importantes fósseis de animais e plantas, que permitem caracterizar a idade dos materiais e o ambiente em que estes se depositaram. Posteriormente às camadas da Série Miocénica existe uma lacuna durante quase todo o Miocénico superior e esta lacuna termina com as camadas do Pliocénico, que não se encontram representadas na área de cidade de Lisboa. O Quaternário é caracterizado, de uma forma geral, por um movimento regressivo não contínuo, com paragens, avanços e recuos sucessivos do mar, que deram origem à deposição de materiais a cotas cada vez mais baixas. Durante estas oscilações, ocorreu a regressão grimaldiana que colocou o nível do mar bastante mais baixo que o atual e escavou a foz dos rios. Seguiu-se-lhe a transgressão flandriana, que colocou o nível do mar onde se encontra atualmente.

Quinta da Granja – Camadas de Prazeres (24 milhões de anos)

Esta unidade (Camadas de Prazeres) é constituída por argilitos, argilitos siltosos, argilitos margosos, margas e calcários. Nos níveis mais argilosos deste afloramento existem, frequentemente, vegetais incarbonizados, cristais de marcassite e gesso, Foto 1. As Argilas de Prazeres marcam o início da transgressão, já que o Oligocénico é efetivamente de caráter continental. Dá-se então, durante a primeira ingressão do mar, a formação de um golfo pouco profundo, seguindo-se durante uma expansão deste golfo até à região de Almeirim, deixando a região de Lisboa submersa.

Foto 1 – Aqui era uma Pântano. No Miocénico Inferior a região de Lisboa era baixa, plana e alagadiça (pântano). A ténue ligação a mar promovia a existência de águas estagnadas, pobres em oxigénio, o que inibia os processos de decomposição biológica, favorecendo a conservação de matéria orgânica. Estas condições levaram à formação de níveis carbonosos, negros, e de níveis argilosos de cor acinzentada.

Aqui foi uma plataforma recifal – Rua Sampaio Bruno (23 milhões de anos)

Datado do Aquitaniano (Miocénico Inferior) este afloramento materializa o fundo marinho de uma plataforma recifal. É possível observar um calcário argiloso onde se destacam concreções carbonatadas (saliências) que correspondem a colónias semi-esféricas de briozoários. O regime de agitação marinha da época levava a que estas colónias se movimentassem em vaivém, por rolamento nos fundos, à semelhança do que sucede com os sedimentos, conduzindo ao aspeto de estratificação entrecruzada visível no afloramento, Diaporama 1.

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Diaporama 1 –  Os briozoários correspondem a um Filo de animais aquáticos, filtradores, quase que exclusivamente coloniais e sésseis. O nome do Filo – Bryozoa (do grego bryon: musgo; zoon: animal) está relacionado com a forma de algumas colónias, que crescem sobre o substrato formando uma cobertura uniforme como um tapete, de modo similar a algumas plantas e musgos. O grupo, entretanto, apresenta uma grande diversidade de formas e habitat, atingindo centímetros ou poucos milímetros de comprimento. Porém, independente do tamanho das colónias, estas são formadas por unidades funcionais e independentes, denominadas zooides, que medem cerca de 0,5 mm de comprimento. As colónias de briozoários são polimórficas, formadas por zooides de morfologias distintas de acordo com suas funções. Estes animais são geralmente abundantes e componentes importantes dos ecossistemas aquáticos, sobretudo marinhos, desde águas rasas até zonas profundas.

De um registo sedimentar em ambiente pantanoso passamos a um ambiente de um fundo marinho de plataforma recifal. Tudo indica que este registo sedimentar foi o resultado de importante subida do nível do mar, evidenciada pela presença de calcários bioacumulados e bioedificados, resultado de sedimentação em profundidades variadas, maioritariamente profundidades pequenas, em águas quentes, agitadas e bem oxigenadas.

Fontes consultadas: 

  • Almeida, F. M. & Almeida, I. Moitinho. (1997) – Contribuição para a atualização da Carta Geológica do Concelho de Lisboa. VI Congresso Nacional de Geotecnia.
  • Almeida, F. M. (1986) – Carta Geológica do Concelho Lisboa, à escala 1: 10 000. Serviços Geológicos de Portugal.
  • Antunes, M. T. & Pais, J. (1983) – Climate during Miocene in Portugal and is evolution. Paléobiologie continentale.
  • Teixeira, C. & Gonçalves, F. (1980) – Introdução à Geologia de Portugal. Instituto Nacional de Investigação Científica, Universidade de Lisboa.

 

 

Gruta de Rio Seco

A cidade de Lisboa é tradicionalmente denominada como a cidade das sete colinas, quando vista do Rio Tejo: São Vicente, Santo André, Castelo, Santana, São Roque, Chagas e Santa Catarina. Contudo, os limites estabelecidos por essas colinas foram há muito ultrapassados pelo crescimento da metrópole.

Em termos geomorfológicos, a região de Lisboa pode ser subdividida em 2 unidades principais: a unidade correspondente aos terrenos da Bacia Cenozoica do Tejo-Sado e a unidade dos terrenos correspondentes à Bacia Lusitaniana (ou Orla Ocidental Mesozoica Portuguesa), Foto 1.

Formação de Bica (Mapa)

Foto 1 – No bairro da Ajuda (Rio Seco), uma enorme caverna surpreende quem por ali passa devido às grandes dimensões da sua entrada, atualmente enquadradas do ponto de vista paisagístico por um parque urbano que constitui zona de lazer para os moradores da localidade.

Os afloramentos Cretácicos estendem-se desde a zona central e mais elevada da Serra de Monsanto, seguindo pelo vale de Alcântara até praticamente ao rio Tejo, prolongando-se para SW ao longo da encosta do bairro da Ajuda. Outros pequenos retalhos afloram na zona de Pedrouços, na zona Norte do Parque Florestal de Monsanto (perto de Calhariz de Benfica), na zona do largo do Rato e no Parque Eduardo VII, todos eles no seio do Complexo Vulcânico de Lisboa. Este “Complexo Carbonatado Cenomaniano” é constituído por espesso conjunto de calcários, calcários margosos, calcários dolomíticos, margas e argilas margosas com níveis fossilíferos.

No Geomonumento de Rio Seco aflora a  Formação da Bica, pertencente ao Cenomaniano Superior, Diaporama 1.

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Diaporama 1 – Fotos do Geomonumento de Rio Seco. Os rudistas (Ordem Rudista) são um grupo extinto de bivalves – com um aspecto muito diferente do dos bivalves que conhecemos da actualidade – que existiu desde o Jurássico superior até ao final do Cretácico da Era Mesozoica (durante cerca de 90 milhões de anos). Habitavam em ambientes marinhos pouco profundos, com águas quentes, tropicais, normalmente semienterrados no fundo lodoso, formado por vasa carbonatada.

Formação de Bica

Esta unidade é composta por calcários compactos de cor branca, rosada a avermelhada e apresentam-se mais margosos para o topo da unidade onde alternam com margas amarelas, rosadas e esbranquiçadas. Os calcários compactos são os dominantes nesta unidade, podendo chegar a apresentar-se cristalinos com ocorrência de nódulos de sílex, alternando com calcários apinhoados e com calcários com uma componente margosa. É característica desta formação a presença de conteúdo fossilífero sob a forma de rudistas, foraminiferos, ostracodos, tubos de serpulídeos, esponjas, algas, gastrópodes, bivalves e equinídeos, do qual se salienta o amonóide Neolobites vibrayeanus que já serviu para diferenciar e denominar esta unidade. Esta unidade apresenta cerca de 50 metros de espessura na região de Lisboa.

No geomonumento de Rio  Seco  é  possível  interpretar  um  episódio  de  transgressão  marinha,  que  criou  condições  para  a sedimentação  de  vasas  num  ambiente  marinho,  litoral,  de  águas  quentes  e  pouco  profundas (“Formação  de  Caneças”  e  “Formação  de  Bica”). Neste geomonumento de Rio Seco, um dos vários afloramentos geológicos existentes na região de Lisboa do Cenomaniano é possível observar excelentes exemplares de Rudistas em afloramento.

A Terra como sistema

A Terra como qualquer porção do espaço constituída por várias partes organizadas (ou subsistemas), inter-relacionadas e interdependentes, formando um todo, pode ser considerada um sistema.

Um sistema corresponde a uma parte do Universo, constituída por massa e energia e limitada por uma fronteira. Este sistema é constituído por vários componentes (subsistemas) que interagem entre si de modo organizado. Os sistemas podem ser classificados quanto à sua capacidade de trocarem matéria e energia com o meio envolvente.

Sistema isolado é aquele em que não ocorrem trocas de matéria nem de energia. Sistema fechado é o sistema que apresenta apenas troca de energia e um sistema aberto é aquele que troca matéria e energia com o meio envolvente.

Na Natureza, só o Universo por inteiro pode ser considerado um sistema isolado. A história do nosso Universo iniciou-se há 13 700 Ma e nesse instante inicial, tudo aquilo que o constitui estava comprimido num densíssimo aglomerado de temperatura tão alta que as partículas elementares materiais se encontravam na forma de energia. Esse todo que estava coeso e ultracompacto num pequeno volume em altíssima densidade. O Universo globalmente pode ser considerado um sistema isolado, pois, por definição não tem limite e desta forma toda a matéria e energia estão no seu interior, não havendo trocas com o exterior.

 

No caso da Terra, o sistema é fechado, já que as trocas de matéria com o Universo são pouco significativas. Já os seus quatro grandes subsistemas (Geosfera, Atmosfera, Hidrosfera e Biosfera) são sistemas abertos.

Os diferentes subsistemas da Terra interagem, influenciando-se mutuamente, mas apesar das interações (principalmente por trocas de matéria e energia), mantêm-se sem grandes alterações internas, em equilíbrio, pela regulação das mudanças. Qualquer perturbação num dos subsistemas tem implicações nos restantes e, por consequência, no Sistema Terra. O Homem é um dos elementos perturbadores do equilíbrio existente nas interações entre os diferentes subsistemas da Terra.

Mar Cenomaniano em Lisboa.

Passear num mar cenomaniano no centro de Lisboa, entre calcários margosos, vestígios de recifes de rudistas e terminar o dia nas escoadas basálticas do Complexo Vulcânico de Lisboa.

A Bacia Lusitaniana, que se situa na faixa ocidental do continente euro-asiático, apresenta inúmeros vestígios de atividade tectónica, nomeadamente no que diz respeito à história da abertura do Atlântico Norte, aquando da fragmentação da Pangeia, durante a era Mesozoica.

A Bacia Lusitaniana encontra-se orientada segundo a direção NNE-SSW e tem aproximadamente 250 km de comprimento por 100 km de largura, com uma espessura máxima de sedimentos de cerca de 4 km. A evolução tectónica e sedimentar da região, acompanhada por variações do nível do mar, com consequente variação de paleoambientes, originou uma geodiversidade assinalável, Foto 1.

Mapa 1

 

Foto 1 – Na área da cidade de Lisboa, destes sedimentos estão apenas representados os materiais do Cenomaniano e do Neocretácico. Destes materiais fazem parte o Complexo Carbonatado Cenomaniano e o Complexo Vulcânico de Lisboa (CVL).

O Cenomaniano encontra-se afetado por falhas e dobras, acompanhadas de intenso diaclasamento observável, por exemplo, no vale de Alcântara e na região de Monsanto. O Geomonumento Parque da Pedra é um dos locais onde podemos observar os calcários margosos resultantes dos sedimentos depositados nesta área da Bacia Lusitaniana.

As unidades aflorantes são a Formação de Caneças, calcários margosos e margas (“Belasiano”), do Cenomaniano médio, com espessura de cerca de 45 m e a Formação de Bica, calcários cristalizados com rudistas e calcários apinhoados com Neolobite vibrayeanus (“Turoniano”), do Cenomaniano superior, com espessura que varia entre 40-50 m. O termo “Belasiano” foi proposto para designar um andar regional definido por Choffat (1885) e tem a sua origem na vila de Belas, na região de Lisboa, Diaporama 1.

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Diaporama 1 – Afloramento do Parque da Pedra em Lisboa.

No início do Cretácico Superior o nível global dos oceanos subiu e o mar invadiu grande parte das terras emersas. Na atual região de Lisboa era uma um mar pouco profundo, de águas quentes, propícias à sedimentação de organismos produtores de estruturas de natureza calcária e de vasas da mesma natureza. A este mar pouco profundo chegavam também argilas que deram origem a bancadas de calcários margosos (calcários com argilas). Sobre os calcários margosos da Formação de Caneças estão depositados os Calcários cristalizados com Rudistas da Formação de Bica, Foto 2.

Cenomaniano (Esquema)

Foto 2 – Formação  de Bica,  calcários  cristalizados  com  rudistas  e  calcários  apinhoados  com  Neolobite  vibrayeanus (“Turoniano”),  do  Cenomaniano  superior,  com  espessura  que  varia  entre  40-50  m.  Afloramento na Avenida Duarte Pacheco.

Na Formação de Bica é possível observar fósseis marinhos, sendo muito abundantes os Rudistas, lamelibrânquios (moluscos) coloniais, construtores de bancos recifais. Os  basaltos  do Complexo Vulcânico de Lisboa (CVL),  assentam  sobre  estes  calcários  cenomanianos  e  são,  de  uma forma  geral,  afetados  pelas  mesmas  estruturas,  embora  em  contato discordante,  devido  à erosão  e  à  carsificação  dos  calcários. Este contacto discordante pode ser observado na Pedreira de Colaride.

Toda esta enorme biodiversidade acabou por desaparecer no final da Era Mesozoica (há 65 Ma) na segunda maior extinção em massa ocorrida na Terra.

Bacia Carbonífera – Processo de formação

Num post anterior Bacia Carbonífera do Douro fora abordados temas relacionados com a génese do carvão. Neste novo episódio sobre esta Bacia Carbonífera vai se abordada a sua formação a partir de de artigos consultados (ver no final as fontes) e a instalação do sistema fluvial e evolução ao longo do tempo para um sistema palustre e lacustre. A estrutura tectónica atual da Bacia Carbonífera do Douro será tema de um terceiro episódio dada a sua complexidade tectónica.

Tectónica

Durante os últimos estádios da génese da cadeia montanhosa Varisca, no final do Paleozoico, formou-se uma bacia sedimentar intramontanhosa – a Bacia Carbonífera do Douro –, na qual foi explorado carvão até ao final do século passado, Esquema 1. Todos os estudos realizados concluem como muito provável a abertura de várias pequenas bacias correspondentes à formação e migração de dopocentros (área ou lugar de uma bacia sedimentar em que uma determinada unidade estratigráfica alcança a sua máxima espessura). Em consequência da alternância de movimento transpressivo com movimentos transcorrentes esquerdos desde as primeiras fases da orogenia varisca (D1) e prolongamento em fases mais tardias (D3), a estrutura sedimentar nestas bacias resultou de uma tipologia pull-apart.

Esquema da Bacia 1

Esquema 1 – As bacias pull-apart podem gerar-se em diversos contextos geológicos, entre os quais ao longo de zonas de cisalhamento entre placas continentais rígidas. A abertura deste tipo de bacias sedimentares relaciona-se com “encurvamentos” que acompanham as falhas transcorrentes que evoluem para bacias d imensão relativamente pequenas de forma alongada e rápida subsidência, devido a movimentos transpressivos, originando um sistema de falhas inversas e uplift vertical. Outro traço característico deste tipo de bacias sedimentares, é o carácter assimétrico das unidades estratigráficas que constituem o seu preenchimento, com extensão muito desigual.

Modelo de deposição

As bacias formadas ao longo do Sulco Carbonífero Dúrico Beirão seriam de dimensão reduzidas e pouco profundas, o que poderá justificar a não acumulação de matéria vegetal em quantidades apreciáveis, Foto 1.

Esquema 2

Foto 1  – Bloco diagrama interpretativo do sistema deposicional e dos respetivos sub-ambientes de sedimentação na Bacia Carbonífera do Douro. A estrutura e estratigrafia sugerem a abertura de bacias sedimentares, de Noroeste para Sudeste, em regime de pull-apart, onde uma forte subsidência permitiu a deposição de sedimentos continentais com bancadas muito ricas em matéria orgânica de origem vegetal que deram origem a camadas de carvão. Estas bacias desenvolveramse na última fase da orogenia varisca e a sedimentação nelas ocorrida esteve fortemente dependente de uma importante e complexa zona de cisalhamento, o Sulco Carbonífero Dúrico Beirão. (Fonte: Percursos Geológicos no Sulco Carbonífero Dúrico-Beirão [Valongo-Gondomar-Castelo de Paiva] – Isabel  Fernandes).

Modelo deposicional da bacia de sedimentação

Esta bacia, onde se desenvolveu um sistema fluvial, foi sendo alimentada, essencialmente, por sedimentos provenientes de relevos próximos e pela matéria vegetal que conduziu à formação de carvão. Para a génese deste carvão contribuíram fenómenos de afundimento. A colisão varisca, tal como se manifestou no Maciço Ibérico, foi um processo longo que se iniciou durante o Devónico inferior e se completou durante o Carbonífero superior. Os efeitos da deformação ligados à colisão persistiram até ao Pérmico inferior, se bem que a sua intensidade tivesse vindo a abrandar.

Em relação ao registo estratigráfico e sedimentológico foram definidas de muro (mais antigo) para tecto (mais recente) quatro grandes unidades , Foto 2.

Esquema

Foto 2 – Brecha de base da Bacia Carbonífera do Douro. Afloramento de Sete Casais em Ermesinde.  Nota – A unidade C apresenta estratificação entrecruzada, característica de situações em que o agente de transporte dos sedimentos tem uma direção variável. Coluna  estratigráfica parcial da Bacia Carbonifera de idade Estefaniano C, inferior. Baseado em A. Jesus, «Evolução sedimentar e tectónica da Bacia Carbonífera do Douro (Estefaniano C inferior, NW de Portugal)», Cadernos Lab. Xeolóxico de Laxe, Vol. 28, 2003.

Nos estádios iniciais de abertura da bacia sedimentar ocorreram deslizamentos de terreno por acção gravítica cuja deposição estaria relacionada com a actividade tectónica das falhas que delimitavam a  bacia. Teriamos muita energia com a presença de seixos angulosos quando as fontes de material estariam mais perto e mais arredondados com um transporte maior. Os diferentes impulsos tectónicos ou alterações climáticas estiveram na origem da deposição de conglomerados e brechas. A repetição destas litologias ao longo da sequência estratigráfica da bacia representam momentos de deposição de alta energia em resultado dos impulsos tectónicos da abertura e aumento da dimensão da bacia, Foto 3.

Foto 3 – Bacia Carbonífera do Douro. A e B brecha e conglomerados polimíticos; C – Flora do Carbonífero  de Montes da Costa (Ermesinde) com Fetos e Calamites (seta); D -bivalve límnicos, género Anthraconaia.

Este ambiente de elevada energia foi alterado para um ambiente de planície de inundação já em contexto palustre a transitar para lacustre por aumento da lâmina de e água. Ocorre o registo de depósitos pelíticos e fitogenéticos composto por camadas e leitos alternados de xisto e carvão, apresentando as camadas de xisto lamnação paralela ao longo da qual os fósseis de vegetais se dispõem. Sobre estes depósitos fluviais provenientes da sedimentaçãode um complexo fluvial entrelançado.

O registo apresenta para tecto uma associação constituida por materiais mais finos e resultaram da acreção vertical, com baixa velocidade de fuxo, o que conduziu à decantação de materiais mais finos sobre a planície de inundação com densa vegetação. A presença de um ambiente palustre, generalizado, à globalidade da bacia, associado a um período de relativa acalmia tectónica com diminuição de energia dos meios sedimentares. A sedimentação em ambiente palustre com tendência para lacustre (por aumento da lâmina de água), justifica um afundimento máximo da bacia.

A idade desta bacia de sedimentação encontra-se bem definida como pertencente ao Estefaniano C inferior. Os estudos paleontológicos, florísticos e faunísticos confirmaram a existência de espécies de vegetais do Estefaniano C inferior e bivalves límnicos. Os tipos litológicos presentes nestas bacias do “sulco” comprovam terem resultado de um sistema fluvial do tipo braided (entrançado) de reduzida sinuisidade constituido por canais múltiplos, separados por barras e ilhas, Foto 1.  Caracterizou-se pela sua carga elevada de sedimentos, formando planícies aluviais dando lugar ao preenchimento da bacia de sedimentação. Estas bacias desenvolveram-se nas últimas fases da orogenia varisca e a sedimentação que nelas ocorreu esteve em forte dependência de uma complexa zona de cisalhamento, o Sulco Carbonífero Dúrico Beirão.

 

Fontes :  https://www.udc.es/files/iux/almacen/articulos/cd28_art04.pdf

 

 

 

 

 

Darwinismo

Embora Charles Darwin tenha escrito, em 1859, “é provável que todos os seres vivos que há na Terra descendam de um mesmo ancestral“, a verdade é que não deu muitos detalhes sobre quais poderiam ser as características desse ancestral cuja existência era necessário reconhecer como parte do seu esquema evolutivo.

O que é o Darwinismo?