Lisboa 01.11.1755

O Dia em que tudo ruiu

Portugal vive dias de esperança neste ano da graça de 1755. A Casa da Ópera foi inaugurada em Abril para saudar um novo género dramático, que na geração anterior, era apupado em Lisboa. Do Brasil, chegam 125 arrobas de ouro por ano, marcando o auge da exploração do nobre metal brasileiro e restabelecendo o tesouro público que tão desbaratado fora no reinado de D.João V. No Porto, constrói-se, desde 1754, a Torre dos Clérigos e, em Braga, o Palácio do Raio vai ganhando forma.

No dia 1/11/1755, quarteirões inteiros desmembram-se. Concentrados à hora da missa, muitos fiéis foram esmagados pelos escombros das igrejas ou ficaram encurralados por toneladas de entulhos.

O governo reagiu, expedito, à tragédia que, durante aquele mês de Novembro, ceifou a vida de cerca de dez mil lisboetas. Das ruínas do terramoto de Lisboa ergueu-se um líder político consolidado e uma cidade planeada.

Em Novembro de 1755 cerca de dez mil pessoas perderam a vida. Lisboa mudou para sempre.

Ainda hoje, o epicentro do terramoto de 1755 é debatido. Já foram propostos quase uma dezena de locais, quase todos ao largo da costa portuguesa, para sul ou sudoeste. A chave, porém,reside segundo João Duarte Fonseca (investigador do Núcleo de Engenharia Sísmica e Sismologia do IST), numa escala cronológica e não no fundo do mar. A maioria dos relatos estima que o maremoto (depois da sequência de oito minutos de abalos) tardou 75 a 90 minutos a fazer-se sentir em Lisboa e ocorreu simultâneamente com um novo sismo. É essa hora e meia que tem permitido estimar a distância à costa da região epicentral.

Durante anos, pensou-se que o banco submarino de Gorringe seria a solução perfeita, em termos de distância de Lisboa e capaciade para induzir um sismo de 8,5 de magnitude de momento. Mas a análise sistemática dos documentos da época revelou também uma esmagadora diferença entre os efeitos devastadores do sismo em Lisboa e no Algarve e os danos menores provocados na região alentejana intermédia.

Para a sismologia anteiror à década de 1990, a proposta de uma ruptura secundária causada à distância por um terramoto seria encarada da mesma forma que um físico reagiria perante a proposta impossível de que, em determinadas situações, a maçã de Newton poderia subir em vez de descer! O sismo norte-americano de Landers em 1992, provocado pela falha de Santo André, encarregou-se de tornar possível uma ruptura secundária. E João Duarte Fonseca adoptou-a para a explicação do sismo de 1755.

O sismo gerado a sul da costa, poderia ter correspondido um ruptura no vale do Tejo oito minutos depois, suficientemente forte para provocar estranhos fenómenos em Benavente. A tese enunciada teve o condão de recuperar o sismo de 1755 para o centro da polémica.

Historicamente, a controvérsia pode ajudar a explicar a inusitada força do tsunami em Lisboa, cidade protegida por um estuário que teoricamente deveria ter provocado o abrandamento das águas. Mas há consequências bem mais palpáveis se este modelo teórico estiver correcto : toda a previsão de risco sísmico para Lisboa pode ter partido de pressupostos incertos.

Uma explicação diferente têm outros investigadores (Terrinha, Cabral e Matias)

“Existem duas orientações preferenciais para as falhas activas, nomeadamente, próxima de este-oeste, inclinando para norte ou para sul, e aproximadamente norte-sul, inclinando para este. A distribuição da sismicidade sugere que ambos os conjuntos se encontram activos e acomodam a deformação sísmica. O sismo de 1969, de magnitude 7,3 a 7,5 com epicentro na Planície da Ferradura, indica rotura numa falha de orientação próxima de este-oeste, constituindo uma evidência recente de actividade sismogénica importante neste sistema de falhas activas. A distribuição da intensidade sísmica em Portugal continental, durante o sismo de 1755, sugere uma orientação norte-sul para a fonte sismogénica. Assim, a Falha do Marquês de Pombal e a Falha da Ferradura podem estar associadas a uma falha única em profundidade, podendo, desta maneira, atingir uma superfície de área superior à necessária para a rotura que gerou o sismo de 1755, com um comprimento de rotura superficial superior a 220 km.”

 
 

 

 

Fonte :

National Geographic, Novembro 2005;

As Fúrias da Terra, Claude Allégre;

Terrinha, P; Cabral J. ; Matias, L – A tectónica recente e a fonte do grande sismo de Lisboa de 1 de Novembro em 1755.

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